A vida urbana é desafiadora. O trânsito das "modernas" cidades tornou-se um embate diário para a maioria das pessoas. Os problemas relativos à mobilidade nos centros urbanos são inúmeros: poluição, congestionamentos, acidentes, lentidão, gastos públicos. Na perspectiva de mudar esse cenário, a bicicleta entra em cena na busca de promover uma cidade mais humana, mais saudável e, sobretudo, mais justa. Atualmente no Brasil a bicicleta representa 7,4% das viagens realizadas nas áreas urbanas, segundo a Associação Nacional dos Transportes Públicos - ANTP. Esse número é bastante significativo, considerando que o modelo adotado pelas políticas de transportes no país tem uma preponderância aos automóveis individuais.
Nesse sentido, o poder público possui uma importante carga de responsabilidade: o desenho urbano, o tipo de ocupação do solo e a presença de infra-estrutura adequada, influenciam a quantidade de deslocamentos não-motorizados realizados pela população; as políticas públicas são responsáveis pela forma como as cidades se reproduzem, na medida em que a organizam e a planejam. Além disso, é fundamental o papel da sociedade civil organizada na luta pela equidade da mobilidade urbana.
Numa sociedade marcada pela desigualdade, de origens escravistas e patriarcais, o homem - gênero masculino - ainda exerce a função de autoridade e à mulher é conferido um papel de submissão. A luta das mulheres contra as formas de opressão na busca de construir novos valores sociais é fortalecida quando estas passam a ocupar o espaço público, neste caso as ruas. Por muito tempo o lar foi tradicionalmente o espaço feminino, pois a cultura brasileira validou a esfera pública, social e econômica como um espaço tipicamente masculino. Entretanto, essa realidade vem mudando desde o surgimento do movimento feminista na década de 70, que trava um embate constante contra o preconceito e o machismo e busca construir um novo cenário para as mulheres, inserindo-as no mercado de trabalho, na música, na literatura, na política, na comunidade, nas universidades, no ordenamento jurídico, nas ruas e em casa.
É diante desse contexto de lutas e conquistas que o "Saia de Bike" aparece. Trata-se de um projeto desenvolvido pela ViaCiclo - Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis, em parceria com o Instituto de Planejamento Urbano - IPUF com o intuito de articular a promoção da mobilidade ciclística com a busca da autonomia feminina. O projeto surgiu em 2007 inspirado no "Saia na Noite", passeio organizado por um pequeno grupo de mulheres em São Paulo que já praticavam o ciclismo e sentiram a necessidade de abrir um espaço direcionado diretamente ao público feminino.
A ViaCiclo é uma entidade da sociedade civil que desde 2001 luta pela inserção da bicicleta nas políticas de mobilidade urbana. Por entender que todos os problemas sociais estão articulados, a ViaCiclo busca agir em vários campos.
O Saia de Bike constitui-se em uma pedalada tranqüila pelas ruas da cidade de Florianópolis visando estimular o uso da bicicleta como meio de transporte incorporando a perspectiva de gênero a fim de fortalecer ainda mais a causa. Ao longo do processo histórico da sociedade a figura feminina mostrou-se fundamental na transformação das relações sociais e ao ocupar as ruas de bicicleta, as mulheres rompem com dois fortes paradigmas: sua associação com a vida privada e o transporte motorizado individual, em especial o automóvel, como símbolo de poder, status, virilidade.
Até esta data foram realizados quatro eventos Saia de Bike, resultando em uma média de 10 participantes mulheres por evento, além de alguns homens acompanhantes. Essa quantidade, em termos absolutos, parece baixa, entretanto apenas 2% das viagens urbanas realizadas cotidianamente em Florianópolis são feitas de bicicleta, sendo que somente 12% delas são feitas por mulheres. Isso indica que, em termos relativos, o evento está compatível com a realidade local.
Pesquisa realizada em Florianópolis revelou que a maior parte das mulheres que usam bicicleta têm medo do trânsito. Por esse motivo, o Saia de Bike, ao oferecer condições de pedalar em grupo, traz mais segurança para as mulheres e estimulam a independência em seus deslocamentos.
A bicicleta representa uma contestação social: ela promove a autonomia, ela permite um melhor uso do tempo, ela permite maior sociabilidade, ela é mais ecológica, ela é mais eqüitativa. Nesse sentido, a bicicleta tem gênero, o feminino. Mas, assim como o Saia de Bike, a causa ciclística é de todos, para homens e mulheres nas suas diferenças e semelhanças.
Roberta Raquel
Associada da ViaCiclo, mestranda em Geografia - Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
Giselle Noceti Ammon Xavier
Associada da ViaCiclo, doutoranda em Ciências Humanas - Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
Artigo publicado originalmente em http://ciudadsustentable.wordpress.com/2008/11/03/mujeres-al-pedal-el-saia-de-bike-en-florianopolis/













Comentario
2010-05-0917:17:12 parabéns pela reportagem . Convidamos todas as meninas do saia de bike para participar do nosso pedal feminino do pedal continente , que se realiza todas as quintas-feiras as 2000hrs com saída da loja da Ciclo Vil Bike em Campinas.
Bjs.