"Uma repórter de bicicleta pela cidade", por Jeanne Callegari: a repórter experimentou o veículo acompanhada por cicloativistas

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“Você? Pedalando?” O olhar incrédulo dos amigos entregava: andar de bicicleta parecia não ter nada a ver comigo. Nunca fui esportista e não gosto muito de sol. Que uma pessoa sedentária e notívaga como eu pudesse acordar, montar em uma bike e ir para o trabalho, a 16 quilômetros de distância, parecia realmente uma piada. Mas o desafio me encantava. Por que não tentar? Foi assim que, após muito ensaio e conversas com ciclistas, me juntei aos 305 mil paulistanos que todo dia usam a bicicleta para chegar a seus empregos, número que não para de crescer.

Tudo começou com uma reportagem. Eu ouvira falar da Bicicletada, movimento que celebra o uso da bicicleta como meio de transporte. O grupo sai toda última sexta-feira do mês da esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação e pedala clamando por mais respeito e espaço no trânsito. Achei que esse evento renderia, no mínimo, uma nota interessante. Afinal, várias cidades adotam políticas em favor das bicicletas. Paris criou um sistema de aluguel de bicicletas que disponibiliza cerca de 20 mil magrelas em 1.500 estacionamentos; Barcelona e Montreal inauguraram serviços parecidos; e, em Nova York, a Secretaria de Transportes diminuiu as vias para carros, dobrou o número de ciclovias e fez a quantidade de ciclistas aumentar 30%. “Em Bogotá, uma cidade que não tinha ciclovias até 1998, agora há mais de 330 quilômetros, utilizados por 350 mil pessoas diariamente, de forma integrada com o sistema de ônibus expressos”, diz Soninha Francine, subprefeita da Lapa, que na maioria das vezes vai para o trabalho pedalando. “O movimento é irreversível no mundo todo – e aqui também!”

Minha primeira Bicicletada, no dia 22 de setembro, foi a mais movimentada do ano, pois era o Dia Mundial sem Carro. Fazia dez anos que eu não montava numa bike. A bicicleta que usei foi cedida pela Porto Seguro. O convênio com a Bicicletada permite que mesmo quem não é cliente da seguradora possa pegar uma das bicicletas do programa Use Bike. Naquele dia, meu objetivo era um só: não derrubar ninguém. Minhas mãos e pernas tremiam e eu me sentia diante de uma missão impossível. Será que, como reza o ditado, “quem aprende a andar de bicicleta jamais esquece?” Para minha sorte, sim. Tive dificuldades, esbarrei em vários colegas, mas era só eles verem que eu estava aprendendo que vinham me oferecer ajuda, dar dicas e manter uma saudável distância. As pessoas levavam bexigas, gritavam: “Mais bicicletas, menos carros!”, estavam fantasiadas e alegres, mas eu estava sozinha: minha luta era com os meus limites e meu medo.

A adrenalina liberada mexeu comigo. Fiquei agitada, eufórica. No bar, com alguns amigos, falava sem parar da Avenida Paulista, belíssima como a vi, ao pedalar. “A bicicleta traz a pessoa de volta à escala humana”, diz a cicloativista Renata Falzoni. “A bike humaniza.”

A reportagem acabou não saindo naquele mês, mas continuei participando dos encontros. Chamei alguns colegas e fui à Bicicletada de outubro. Já não sentia toda aquela insegurança e pude aproveitar para apreciar a paisagem, as pessoas. “A evolução na bicicleta é muito rápida”, me disse, depois, o professor de medicina esportiva da Unifesp Renato Romani.

Resolvi, então, comprar uma bicicleta. Pretendia me juntar a um dos grupos de pedal noturno da cidade. O pioneiro foi o Night Bikers, fundado por Renata Falzoni em 1989. “A ideia era convencer os executivos a pedalar. Assim eles poderiam olhar o ciclista com outros olhos”, conta Renata. Segundo ela, o respeito hoje é muito maior do que há 20 anos. Coincidência ou fato, a maioria desses grupos atua no Centro Expandido, a área com o menor índice de acidentes da cidade. “O motorista precisa entender que deve manter uma distância de 1,5 metro do ciclista ao ultrapassá-lo, por segurança. Isso é lei, e desobedecer pode render uma multa”, afirma Renata.

Procura dali, pesquisa de cá, não conseguia decidir por uma bicicleta. Resolvi pedir ajuda ao pessoal da Bicicletada. Acabei optando por uma do tipo urbana, que era adequada ao meu tamanho e ao meu propósito. Fiz, então, algumas adaptações. Coloquei uma “mesa” no guidão para que ele ficasse mais alto, com uma posição de pedalar mais ereta. Há quem afirme que essa posição é a melhor para andar na cidade. E há também quem diga que o melhor é uma posição mais esportiva, como a das mountain bikes, com o corpo mais inclinado para a frente. A vantagem da posição ereta é que você fica mais relaxado e consegue girar o pescoço e ver o trânsito com mais facilidade; o bom da posição mais agressiva é mais estabilidade para encarar curvas e ladeiras. “Você deve pedalar e sentir que a bicicleta é uma extensão do seu corpo”, me disse a cicloativista Juliana Mateus (veja qual é a bike ideal para você).

Bike arrumada, fui testar. Após pedalar alguns dias sem rumo, perto de casa, senti falta de ter um objetivo, de ter de ir a algum lugar. E pensei que talvez ir ao trabalho com ela não fosse má ideia. O jornalista e cicloativista Leandro Valverdes se ofereceu para me acompanhar. Decidi ir pela primeira vez num feriado em que eu faria plantão. Grande erro. “O ideal é ir passo a passo, gradualmente, sem esperar milagres”, diz o professor de bicicleta Arturo Alcorta.

Naquele dia, Leandro só poderia me acompanhar em parte do trajeto. A distância não era pequena, 16 quilômetros, e eu não sabia se iria aguentar. A velocidade média de um ciclista na cidade, sem pressa, é de 15 km/h. Eu deveria gastar pouco mais de uma hora para chegar. Levei quase três. “O trajeto da bicicleta é diferente do dos carros. É preferível ir por vias tranquilas, evitando as grandes avenidas”, disse Leandro. Com o mapa que ele preparou para mim no Google Maps, saí de casa e ia parando a cada rua para conferir o itinerário. Encontrei Leandro no caminho, ele fez um trecho comigo e depois segui sozinha. “O maior perigo para o ciclista são os cruzamentos. Tome cuidado”, disse. Leandro repetiu a mensagem várias vezes. Chegou até a ser irritante. E não é que, quase chegando, eu atravessei uma rua fora de hora e colidi de leve com um carro que acabava de arrancar? O saldo foi um ralado no joelho, mas passei a prestar mais atenção a partir dali. Na dúvida, espere o sinal fechar, desça da bicicleta e atravesse na faixa de pedestres, empurrando.

O tombo não arrefeceu meu ânimo. Pelo contrário. Batizada, resolvi que iria aprender a andar pelas ruas. Treinei, participei de pedaladas noturnas, fui a mais Bicicletadas.

Em janeiro de 2009, depois do recesso de final de ano, Leandro me acompanhou de novo ao trabalho. Dessa vez foi pra valer, com trânsito. Não vou dizer que não dá medo: dá, sim.

A possibilidade de um acidente assusta mesmo. Não é raro ouvir buzinadas e levar “fechada” dos motoristas. No dia 14 de janeiro, por exemplo, a experiente Márcia Regina de Andrade Prado, de 40 anos, morreu após colidir com um ônibus na Avenida Paulista. O número de acidentes fatais com ciclistas, porém, está estável. Em 2006, foram 83 mortes. Em 2007, 84. E em 2008, apesar de os dados completos ainda não estarem disponíveis, a CET estima que não devem passar de 60. Considerando que o número de ciclistas cresce a cada ano, está mais seguro andar de bicicleta em São Paulo. Ainda assim, um ciclista morre na cidade a cada cinco dias.

Para andar com segurança, as regras são simples. Primeiro, obedeça ao Código de Trânsito Brasileiro, que regulamenta as bicicletas como meio de transporte. Isso significa andar pela pista, na faixa da direita, na direção do trânsito. Não trafegue na contramão nem pela calçada. “A única vez que caí, eu ia pela calçada. Um carro saiu da garagem e me pegou”, diz o engenheiro Mathieu Gillot, de 35 anos, que vai de bicicleta para o trabalho todos os dias. Ao todo, são 12 quilômetros. Meu trajeto, apesar de ser mais longo que o de Mathieu, é quase todo plano e mais leve, pois segue a várzea do rio.

“Esse papo de que não dá para andar de bike por causa da topografia é lenda”, diz Soninha. “Moro em Perdizes, onde tem muita ladeira. Quando não consigo pedalar, desço e empurro”, diz ela, que tem uma bicicleta dobrável. As dobráveis, aliás, são uma opção para quem precisa percorrer grandes distâncias. Dá para ir de bike até a estação de trem, de metrô ou o ponto de ônibus, então dobrá-la e carregar.

Para quem não tem uma dobrável, a dica é deixar a magrela em um dos paraciclos do metrô ou da CPTM e pegar na volta. “Hoje só se entra com a bike no metrô durante a semana, a partir das 20h30. Com a expansão da rede, prevista para 2010, esse horário deve ser ampliado para o dia todo”, diz Ismael Caetano, diretor do Instituto Parada Vital, ONG de fomento ao uso das bicicletas. A Prefeitura também estuda ampliar os pífios 29 quilômetros de ciclovias de que a cidade dispõe hoje. “Mas não precisamos de ciclovias, e sim de respeito dos motoristas na hora de compartilhar a via”, diz Leandro.

Após uma hora e meia de trajeto, chego. Com o tempo, farei mais rápido. Na Editora Globo, deixo a bike junto com as motos. Depois tomo um banho no vestiário dos funcionários. “O dia começa mais animado quando pedalo até o trabalho”, diz Mathieu. Verdade. “A gente emagrece e fica mais saudável e animado, pois aumenta a absorção de oxigênio, o que nos dá mais energia”, diz o médico Renato Romani.

Ao chegar, várias pessoas me perguntam sobre a bike. Percebo um interesse, gente que gostaria de tentar, mas tem medo ou não sabe como. “Quando comecei a pedalar para o trabalho, eu era o único. Hoje já são cinco bicicletas na garagem aqui da empresa”, diz o executivo Rogério Manso, de 51 anos. “As pessoas querem saber como é. Eu também queria, aí saí explorando”, diz ele. “Você testa os trajetos, descobre o que é melhor, desenvolve uma logística.”

Após quatro meses redescobrindo o prazer de pedalar, percebo que bicicleta é pra mim, sim. Os amigos ainda acham graça. Alguns não aguentam mais me ouvir falar de bicicleta. É que eu a considero o veículo ideal: permite vencer distâncias maiores que a pé, não polui, não faz barulho, é saudável e não gera trânsito. Mas o mais bacana da bike não é nada disso. O melhor é que é divertido. E isso é ótimo antes de encarar o batente. O resto, como se diz, é um “plus a mais”. Fazer um mundo melhor vem de brinde.

Vantagens de pedalar de casa para o trabalho

• Você economiza. Uma pessoa gasta, no mínimo, R$ 520 por mês com o carro no Brasil, segundo estudo da AutoInforme. Com a bicicleta, a média de manutenção é de cerca de R$ 30 por mês.

• Você ganha tempo. A bicicleta é ideal para trajetos de até 4 km. Se for de menos de 7 km, ela chega mais rápido que o carro. Se for de mais de 15 km, você economiza o tempo “gasto” na academia!

• A sua relação com a cidade muda. Você passa para a escala humana. Nota um monumento que nunca viu, um prédio bonito...

• Você evita o estresse do trânsito. É claro que pedalar em São Paulo não é o mesmo que andar à beira-mar, mas, mesmo com o trânsito pesado, você sabe o tempo que vai levar até chegar.

• Sua saúde melhora e você fica mais bonito. Pedalar melhora o ânimo, deixa o coração mais forte e o seu corpo mais modelado.

• Você contribui para uma cidade melhor, com menos carros, menos poluição, menos barulho e menos trânsito.

• Como o carro, a bicicleta é um veículo porta-a-porta, ou seja, ela pode te levar de casa até o destino final, sem baldeações.

• Bicicleta dá um sentimento de autonomia, de liberdade. Sair com ela é mais rápido e prático do que de carro. Estacionar com ela também. O chato e complicado é quando chove...

• Andar de bicicleta é divertido. Mesmo com trânsito, poluição e falta de respeito, ainda é mais gostoso do que dirigir. Metrô e trem também não poluem, mas não são tão lúdicos.

Produção: Camile Comandini, Produção de Figurino: Marcos Cherevek - Nina Assessoria
Agradecimentos: Centauro e Caloi

Título original: "Diários de bicicleta"
Por Jeanne Callegari

Retirado de http://revistaepocasp.globo.com/Revista/Epoca/SP/0,,EMI25308-15368-1,00-DIARIOS+DE+BICICLETA.html em 10/02/09
Última atualização ( Ter, 10 de fevereiro de 2009 17:09 )  

Comentario 

  1. #2 Walter Fiorellini Write e-mail
    2010-09-2108:40:55 Cara Jeanne,
    No conjunto, escreveste um belo texto. Porém (e sempre há um porém) noto que repetes o termo "bike" por 14 vezes. Achas mesmo necessário utilizar a palavra estrangeira "bike" quando no idioma português, que é a língua que todos falamos, há a boa e velha palavra bicileta? Não seria servilismo e modismo a utilização do inglês? No mais das vezes, essa pretensa "modernidade" revela falta de bagagem cultural. Concordas? Sabes, há um espaço no qual estacionam-se bicicletas em cuja fachada existe um cartaz onde lê-se bicicletário e não "biketário". É isso. Abraços.
  2. #1 Bruna Maculan Write e-mail
    2010-08-2317:20:35 Muito legal! Minha historia e um pouco parecida, que foi o que o meu amigo disse..rs. Vamos ver. Fiquei bem animada!

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