"Bicicleta já faz parte do dia a dia dos pais", por Simone Tinti: veja como as famílias fazem para adaptar a vida sob duas rodas com a rotina dos filhos

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asfTrânsito violento, poucas áreas com ciclovias, poluição do ar...Você tem muitos motivos para ter medo de deixar o carro de lado. E para não levar os filhos na garupa, é claro. Mas saiba que muita gente decidiu usar a bicicleta, mudando radicalmente sua rotina - e para melhor. Em São Paulo, são cerca de 300 mil pessoas.

O trânsito é o mesmo, mas em cima da bike você desvia dos inúmeros pontos de congestionamento, melhora seu condicionamento físico e, de quebra, ainda se diverte.

Nos depoimentos a seguir, pais que adotaram uma postura mais "verde" contam como seus filhos reagem e se comportam em relação a esse estilo de vida. Que tal se inspirar nestas histórias e começar a levar seu filho para, pelo menos, passear nos parques no fim de semana? Só não se esqueça de tomar os cuidados necessários (veja no box).

Segurança em cima da bike

- Verifique as condições da bicicleta, cheque freios, pedais, correia, pneus, marchas, refletores. É obrigatório usar buzina ou campainha;

- Use equipamentos de segurança (óculos, capacete e luvas). Atenção ao capacete: o produto deve ter o selo do INMETRO. O tamanho é importante - precisa estar confortável, nunca apertado nem solto;

- Uma dica para quando a criança se nega a usar o capacete é deixar que ela escolha o produto, com a cor e estilo que preferir;

- A criança deve usar sapatos fechados, com cadarços apertados;

- Os pés da criança devem alcançar o chão enquanto ela não estiver sentada no assento da bicicleta;

- Escolha locais menos movimentados, como parques e ciclovias, quando for andar com o seu filho;

- Use roupas coloridas e claras. Elas ficam mais visíveis aos olhos dos motoristas;

- Fique atento aos automóveis que saem e entram em garagens, veículos dando marcha ré e pessoas cruzando a rua;

- Não ande na contramão. Evite andar na calçada, mesmo com seu filho. Os automóveis, ao saírem das garagens, não conseguem ver quem está passando;

- Não pedale com seu filho por vias onde caminhões e ônibus trafegam;

- Sinalize o que vai fazer usando os braços;

- Respeite a sinalização de trânsito;

- Ensine a seu filho que a bicicleta não é um brinquedo, mas um veículo de transporte. Andar no trânsito, principalmente, requer cuidado e responsabilidade.

Se for levar a criança na bicicleta

- Nunca deixe que os pés de seu filho alcancem as rodas, tanto na cadeirinha dianteira, na traseira ou no bagageiro. Escolha cadeirinhas próprias, respeitando o máximo de peso permitido. As mais indicadas são aquelas acolchoadas, com cinto de segurança, refletores e espaço para acomodar os pés.

Fontes: Ong Criança Segura; Arturo Alcorta, responsável pelo site www.escoladebicicleta.com.br e Abraciclo.

Bicicleta pelo mundo

Autoridades de vários locais do mundo já reconhecem a importância da bicicleta como transporte e agem em prol da segurança e bem-estar dos ciclistas. Em Paris, existe um sistema de aluguel; são 20 mil magrelas espalhadas por 1500 estacionamentos. Algo parecido com o bicicletário do Metrô de São Paulo, que conta com uma frota bem mais modesta, são 70 bikes em 7 estações - e mais 70 vagas para estacionamento. Em Nova York, a quantidade de ciclistas na rua aumentou 30% graças à medida da Secretaria de Transportes da cidade que dobrou o número de ciclovias. Na capital da Colômbia, Bogotá, há 330 km de ciclovias por onde passam 350 mil pessoas diariamente.



Depoimentos de pais que adotaram a bicicleta como meio de transporte

"É preciso calcular socialmente o custo de nossas atitudes. São nossos próprios filhos que sofrem com a poluição" - Antonio Lacerda Miotto

Antonio Lacerda Miotto, 42 anos, professor universitário em São Paulo, adotou a bicicleta como meio de transporte há 3 anos. Ele diz que a maioria de seus deslocamentos acontece em cima da bike ou a pé, de ônibus, metrô, táxi ou carona. "Em casa, tínhamos dois carros. Hoje mantemos apenas um, por causa da minha mulher, principalmente", diz.

Com a filha, Isabelle, de 9 anos, Miotto diz caminhar muito. "Antes, a escola dela ficava a 3 km de casa, e sempre voltávamos a pé, no fim da tarde. Hoje, ela se mudou para uma outra escola que fica um pouco mais longe, mas nada que atrapalhe nossas caminhadas", diz. Enquanto eles ainda não experimentam o novo caminho - o que deve acontecer em breve - Isabelle vai de carona. Aliás, revezar com outros pais é o esquema que Miotto considera ideal para levar a criançada para a escola. "Os pais precisam conversar uns com os outros. É preciso calcular socialmente o custo de nossas atitudes. São os nossos próprios filhos que sofrem com a poluição", diz. Ele diz que a filha adora as caminhadas diárias. E a bicicleta? "Ela gosta, mas ainda usa rodinhas e não se sente tão segura. Eu respeito os limites dela, mas sempre a incentivo", conta.

Mesmo morando em uma cidade como São Paulo, com um trânsito difícil, Miotto defende a bicicleta como meio de transporte. Ele acredita que qualquer cidade pode ser adequada para andar em duas rodas. Ele considera sua atitude quase como um "manifesto". "Na bike ou a pé sentimos melhor a cidade. E, ao tomarmos essa decisão, mostramos que podem existir soluções para a cidade".


"Não fico preso no trânsito e ainda aproveito para ver a cidade de perto" - Eduado Ludy

Eduardo Luedy, 42 anos, é pai de Gustavo, 12 anos, e Gabriel, 6 anos. Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mora com a família em Salvador, Bahia. Há dois anos, Eduardo vendeu seu carro e passou a usar a bicicleta para quase tudo. "Só quando faço a compra do mês e para alguns passeios com a família, eu pego o carro da minha mãe emprestado", diz.

Os filhos vão para a escola de van. Eduardo e sua mulher, Shirleyne, de 41 anos, acreditam que dessa forma as crianças estarão mais seguras. "O transporte público é precário e o trânsito é muito ruim em Salvador", explica. Ainda assim, o professor universitário se "arrisca" diariamente, locomovendo-se pela cidade em cima da bike.

O desafio, segundo Eduardo, é compensador. Usar a bicicleta como meio de transporte mudou sua vida em muitos aspectos. O primeiro deles é a sensação de autonomia e de liberdade proporcionada pela opção. "Não fico preso no trânsito e ainda aproveito para ver a cidade de perto", diz. "Sem falar nos benefícios para a saúde e a consciência de não estar poluindo mais ainda Salvador."

A família de Eduardo não pensa exatamente da mesma forma. O filho mais velho, Gustavo, e a mulher, Shirleyne, reclamam por não ter carro. "Principalmente quando querem passear", conta. Nessas horas, Eduardo tenta convencê-los de que fizeram a opção certa, e que cuidar do meio ambiente é imprescindível. "Ainda sonho em poder usar o transporte público com segurança e ver o trânsito menos violento."

Como professor de uma universidade que fica a mais de 100km de Salvador, Eduardo não vai de bicicleta até o trabalho. A instituição disponibiliza ônibus fretado para os profissionais que moram na capital baiana irem até Feira de Santana. "O ponto de ônibus fica a 10km de casa. Vou até lá de bicicleta, e a carrego comigo para universidade. Na volta, desço no ponto e vou para casa de bike novamente", explica.

A despeito das reclamações da mulher, Eduardo já levou o filho mais velho para andar de bicicleta pela cidade. "Eles ainda têm muito medo, e estão certos por isso", diz. Passeio em parques e ciclovias com as crianças também são raros. "Como não temos carro, não há como transportar as bicicletas até um lugar mais seguro. Não quero pedalar com eles no trânsito".


“Hoje eu tenho condições de comprar um carro, mas descarto essa chance”
- Samir Pereira de Souza, 29 anos, pai de Natália, 4 anos

Há 15 anos, o educador Samir Pereira de Souza, hoje com 29, adotou a bike como meio de locomoção. Na época, a decisão foi motivada pela vontade de melhorar o condicionamento físico e ter uma opção ao transporte público, que ele considera caro e ineficiente. Carro? Nem pensar. “Hoje eu tenho condições de comprar um, mas descarto essa chance”, afirma.

Hoje, casado com Simara, 30 anos, e pai de Natália, 4 anos, Samir mantém o hábito e levou a família consigo. Somente nas viagens mais longas, eles usam transporte coletivo, no dia a dia, todos preferem a bicicleta.

Samir leva a pequena Natália na escola, que fica a 1km de casa, num bagageiro em sua bicicleta especialmente construído para carregá-la. Para passeios perto de onde a família mora, no bairro da Mooca, Natália usa sua própria bike. “Ainda não pedalo com ela nas ruas. Preferimos as calçadas largas e parques”, conta Samir.

Os pais adotam alguns cuidados na hora de pedalar com a filha. Andam perto dela, prontos para auxiliá-la numa possível queda. Além disso, os equipamentos de segurança são indispensáveis.

O educador, no entanto, não vê a bicicleta como única solução para o trânsito da capital. “O melhor seria um transporte coletivo mais barato e eficiente. Ainda assim, não abriria mão da minha bike”, diz.


”Sem eu dizer nada, meu filho pediu uma bicicleta de presente no Natal” - André Pasqualini

André Pasqualini, 34 anos, analista de sistema, é ciclista há mais de 15 anos e até viaja de bicicleta. “Comecei a pedalar simplesmente pelo prazer de interagir com a cidade - dou vários ‘bons dias’ quando estou de bike - mas hoje em dia, a ecologia também é um motivo pelo qual defendo a bicicleta”, diz. Seu filho Marcos Enzo, 2 anos e 2 meses, já viajou na garupa do pai e adora o passeio. Pasqualini comprou uma cadeirinha especial para o garoto e foi com ele do Campo Belo a Moema, em São Paulo. “Conheço bem a cidade e procuro sempre caminhos alternativos. Corto por bairros, ruas menos movimentadas e evito passar pontes. Infelizmente, a cidade não está muito preparada para quem anda sob duas rodas - até para os cadeirantes é difícil...”, diz.

Pasqualini tem um carro, mas usa o automóvel apenas para levar a mulher. Para levar o filho à escola, a alternativa é a perua escolar. “Assim, não contribuo para os congestionamentos nas portas das escolas”. Se depender do pedido de Enzo ao Papai Noel no fim do ano, o garoto deve seguir o mesmo caminho do pai. “Sem eu dizer nada, ele pediu uma bicicleta”.

Reportagem de Simone Tinti, com Daniella Cornachione (Revista Crescer)

Retirado de http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/1,,EMI63209-15546,00.html em 10/03/09

Última atualização ( Qua, 11 de março de 2009 23:51 )  

Comentario 

  1. #1 Felipe Write e-mail
    2009-12-1606:05:51 Excelente matéria… e acho que primeiramente as prefeituras junto aos governos deveriam investir mais nas ciclovias para que as pessoas se sintam mais confiantes em poder pegar sua bibicleta e sair de casa para ir a escola, trabalhar e etc.
    E as empresas deveriam incentivar seus funcionários a ir de bicicleta oferecendo vestiários e estacionamentos seguros e adequados.
    Abraços!!!

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