Andar de bicicleta é bem mais que um simples e antigo meio de transporte. É uma forma de lazer que também proporciona condicionamento físico, faz bem à mente e garante qualidade de vida aos seus adeptos. Apesar de ser um veículo individual - o mais usado no País - ele tem o poder de reunir grupos de pedalantes, inclusive famílias inteiras que, ao descobrirem novas trilhas, renovam e consolidam laços afetivos.
Foi assim com a cabeleireira Vanúzia Melo, 44 anos, que há três anos entrou para um grupo de ciclistas em companhia do marido Francisco José de Melo, 49, dos filhos Matheus, 21, e Thaiane, 18, e do sobrinho Pablo, também de 18 anos. Ela conta terem sido os passeios fundamentais para curar uma síndrome de pânico que lhe acometia.
"A bicicleta foi minha psicóloga", diz a sorridente Vanúzia, que hoje faz questão de divulgar as atividades do grupo e de exaltar os benefícios das pedaladas. "A gente aprende a superar nossos próprios limites e isso conta muito no cotidiano. É maravilhoso!" A cabeleireira diz já estar planejando a comemoração de seus 25 anos de casamento. "Vai ser pedalando, claro!"
O convite para Vanúzia foi feito por Miguel Júnior e Wagner Marcelino, espécie de líderes do grupo de ciclistas que sai da Praça Augusto Leite, no Tirol, para passeios, todas as quartas-feiras, às 20h. O número de participantes flutua em torno de 50 pessoas de diversas idades e profissões.
Atualmente, Júnior é comerciante, dono de loja de bicicletas, mas já foi ciclista competidor e tem mais de 35 anos de experiência na área. Apesar de suas atribuições, ele diz não faltar a nenhum passeio. E, na maioria das vezes, leva a família junto com ele. "Quando o cara gosta mesmo, ele dá um jeito e vem aos encontros", afirma.
Para o presidente da Federação Norte-Rio-Grandense de Ciclismo, Armando Paiva, os passeios e trilhas também servem, entre tantas outras coisas, para aliviar destemperos afetivos no lar. "Quando estamos estressados, eu e minha mulher vamos pedalar. A pessoa que faz um passeio não é a mesma quando volta, pois deixa de pensar nas coisas ruins; muda de foco", comenta. "Também gosto de pedalar antes de ir para o trabalho. Já chego lá bem relaxado."
Armando Paiva conta que passou a fazer passeios ciclísticos, por lazer, há cerca de vinte anos, motivado por alguns problemas sentimentais e físicos. Juntou-se ao ser irmão, que já pedalava e vivia lhe convidando. O primeiro intuito foi relaxar. "O nosso astral muda muito. Nos juntamos a pessoas que estão procurando a mesma coisa que você."
Para ele, os passeios tem o poder de aumentar o círculo de amizades, promovendo ainda uma espécie de nivelamento social dos participantes. Os grupos de ciclistas congregam profissionais das mais diferentes áreas e de classes sociais distintas. "Mas quando estamos pedalando somos todos ciclistas", comenta Armando.
Já Júnior ressalta o espírito de solidariedade e honestidade que, segundo ele, marca o perfil do pedalante. Segundo ele, quando um novo integrante não possui os equipamentos de proteção necessários, no mínimo um capacete, o grupo se cotiza e compra o que estiver faltando. "Quando um novato entra no grupo, ele não está no mesmo ritmo dos outros. Mas nem por isso deixamos ele sozinho. Ninguém deixa ninguém para trás. Temos respeito por todos", diz Júnior. "Uma das marcas do ciclista é a honestidade."
Natal ainda não tem local adequado e seguro para pedalar
Natal não tem locais seguros e apropriados para pedalar. A afirmação é dos próprios ciclistas e também do fisiologista Roberto Vital. Sem ciclovias, os adeptos do esporte em duas rodas são obrigados a desviar dos carros e caminhões, arriscando a vida. "Quando estamos em grupo, até que os motoristas respeitam; mas se for uma pessoa sozinha, aí complica", afirma Miguel Júnior, considerando o trecho inicial da Rota do Sol como o que oferece mais segurança. "Mas isso por enquanto; até quando inaugurarem aquele grande condomínio perto de Pium", avalia.
E a falta de espaço para quem pedala nas ruas e avenidas da cidade não atinge apenas os desportistas, como bem lembra Wagner Marcelino, técnico de informática e ciclista. "Tem um grupo grande de trabalhadores, principalmente da Zona Norte , que vão para o emprego de bicicleta. Eles estão ficando sem espaço principalmente na Bernardo Vieira, depois daquela reforma", diz.
E não há solução para o problema? O assunto está sempre em pauta através de protestos ou quando se anuncia obras viárias na cidade, como a ampliação da Via Costeira. Júnior afirma que existe um projeto de ciclovia elaborado há anos para as principais avenidas natalenses, mas que até hoje não foi implementado. "Já chegou muito político em época de eleição querendo pegar carona na idéia. Só que depois de eleitos, eles desaparecem", reclama. "Infelizmente, o poder público não ajuda."
O projeto, segundo o comerciário, serve a quem usa a bicicleta para o lazer ou como meio de transporte. Não seria algo caro de executar, pois trata-se de uma adaptação de idéias colhidas em várias cidades, do Brasil e do exterior. "Em Paris, por exemplo, as calçadas são pintadas com faixas exclusivas para o ciclista. E todo mundo respeita", diz Júnior.
Os percursos dos passeios que Júnior coordena são escolhidos antes da largada, numa reunião que observa as condições do caminho, principalmente a segurança. Além da Rota do Sol, no plano urbano, também servem como trilhas áreas de Cidade Satélite, Parnamirim (por trás do aeroporto) e também em Alcaçuz.
O médico Roberto Vital observa que ao pedalar no meio urbano, além do risco de acidentes, o ciclista também está sujeito a lesões provocadas pelo estresse gerado pelo temor.
Serviço:
Saída dos passeios (20h):
Quarta-feira: Praça Augusto Leite e av. Nascimento de Castro (Spacial Veículos).
Terça e quinta: Rota do Sol, em frente ao posto Texaco.
Informações: 3211 4204.
Pedalar gera benefícios ao organismo
Pedalar regularmente melhora a capacidade respiratória, queima calorias, previne doenças cardíacas e doenças crônicas, como diabetes, além de ativar a musculatura de várias partes do corpo. Segundo o fisiologista e médico do esporte Roberto Vital, qualquer pessoa pode aderir aos passeios ciclísticos, desde que faça um exame médico prévio. "Não só para pedalar, mas para qualquer atividade física", diz ele.
A avaliação médica serve para, segundo o especialista, identificar algum problema ortopédico, de coluna, braço ou perna, ou ainda patologias mais graves, como uma cardiopatia, que possa contra-indicar a prática da atividade física. "E, dependendo da situação, vai se pedir alguns exames, que hoje você tem desde os mais simples, de laboratório, até os mais sofisticados, como teste ergométrico, espirometria, que vai dar uma ideia não só de algum problema subclínico mas até mesmo da capacidade física daquele indivíduo que está começando; saber se ele está bem ou mal em termos de condicionamento", informa Vital.
Alguns detalhes da bicicleta também devem ser observados antes de começar as pedaladas, segundo o especialista, e isso varia de acordo com a idade do ciclista. A regulagem do assento e dos pedais pode implicar no aparecimento de lesões em locais como tornozelo, coxa ou na coluna, que podem ser submetidos a uma forte carga de pressão.
"Se for um adolescente, poderia contribuir para que piore a postura a longo prazo. Então, deve-se ter uma boa postura na hora de pedalar. E existe também os equipamentos de proteção individual, que vão desde o capacete, joelheira, cotoveleira, para prevenir numa possibilidade de queda", diz Roberto Vital, que ainda recomenda o uso de boné ou chapéu para quem for fazer trilhas ou passear sob o sol forte de Natal. E não esquecer de passar filtro solar, é claro.
Para esses, a hidratação é algo essencial; e deve ser feita antes, durante e depois da atividade física, com água ou bebidas isotônicas.
Realizada a avaliação prévia e não sendo encontrada nenhuma restrição, Roberto Vital aconselha que seja respeitado o ritmo de cada integrante da família. "Preconiza-se que vá aumentando gradativamente a distância e o ritmo das pedalas."
Serviço:
Saída dos passeios (20h):
Quarta-feira: Praça Augusto Leite e av. Nascimento de Castro (Spacial Veículos).
Terça e quinta: Rota do Sol, em frente ao posto Texaco.
Informações: 3211 4204.
Retirado de http://tribunadonorte.com.br/noticias/103546.html em 16/93/09












