O vídeo que mostra o bancário Ricardo Neis atropelando dezenas de ciclistas na última sexta-feira, 25 de fevereiro, chocou não só o Brasil, mas o mundo, e levanta algumas reflexões importantes. Embora tenha sido marcante pela crueldade e frieza do ato, ela está longe de ser a primeira reação raivosa contra os mais diversos tipos de manifestações de rua. Uma parcela considerável das pessoas tem absoluta ojeriza desses atos e costuma julgar quem participam deles de "vagabundos" e "baderneiros". Muitas vezes, a reação é pior com isso do que com notícias de desmandos das autoridades ou de casos horrendos como de estupros, assassinatos em massa ou casos de pedofilia.
Essas pessoas muitas vezes utilizam o argumento do "estado de direito" para questionar a legitimidade dessas manifestações, atos ou ações coletivas. Para elas, se estamos nesse estado de direito, são as instituições do Estado e a justiça que devem resolver tudo. Acontece que existem várias alternativas para se tentar solucionar muitos problemas com os quais a sociedade convive. Muitos são pela via institucional e diplomática, outros pela ação do Estado, e outros somente serão solucionados por meio da pressão popular. Ora, teríamos findado a ditadura militar fazendo um abaixo-assinado, ou enviando cartas aos militares? Mubarak teria decidido sair do poder no Egito depois de reuniões a portas fechadas com seus opositores? O Congresso Nacional aprovaria o impeachment de Collor sem os caras-pintadas na esplanada? Em quanto tempo a justiça o derrubaria? Anos após o fim de seu mandato?
É o caso das reivindicações do movimento Massa Crítica, que se originou em São Francisco, EUA, na década de 90, e se espalhou para várias cidades no mundo. Sua luta é por meios de transporte alternativos, por um transporte coletivo de qualidade, por ciclovias, por respeito ao pedestre e ao ciclista, pelo meio-ambiente, contra o sedentarismo e contra o caos urbano que engloba engarrafamentos infernais, acidentes fatais e brigas e discussões estúpidas no trânsito. Para isso, na última sexta-feira de cada mês, no início da noite, ciclistas de todas as idades se reúnem para, simplesmente, andar de bicicleta.
Nesse momento, muitos podem fazer alguns questionamentos. Por que não avisar a polícia ou a Secretaria de Segurança, para serem escoltados? Por que ocupar toda a via? O argumento do movimento em relação à primeira questão é plausível: qual o sentido de pedir escolta de carros e outros veículos em uma manifestação de ciclistas que lutam pelo uso de meios de transporte alternativos?
Em relação à segunda questão, a resposta é mais óbvia. Trata-se de uma forma de manifestação. Não é um mero evento festivo, uma celebração das bicicletas. É uma reivindicação, embora "indireta" e menos óbvia. Sugere uma provocação que deve suscitar reflexões por parte da sociedade. Algo como: "Por que me irritar com um movimento que acontece uma vez por mês, de noite, com duração de minutos, quando todo dia, ao ir trabalhar, me deparo com um congestionamento insuportável e com pessoas que utilizam seu veículo ora como brinquedo ora como arma, agindo como se fosse dono da rua?" E quem é que age como dono da rua, aquele motorista que não respeita um sinal vermelho, para na faixa de pedestres, estaciona em lugares reservados para idosos, anda em duas faixas, nunca aprendeu como dar uma seta, ou um grupo de ciclistas que pretende justamente fazer uma reivindicação?
No fim das contas, é uma espécie de reação contra o desrespeito diário aos ciclistas. Ou seja: "Você, motorista, não me respeita nas ruas, ocupa todo o espaço e me coloca em constantes situações de perigo. Pois bem; hoje, só hoje, só por alguns minutos, essa rua será minha."
É triste e espantoso ver, nos portais como Terra e Uol, que permitem comentários dos leitores a respeito das matérias, a quantidade razoável de pessoas que, aproveitando-se do anonimato, elogiam e parabenizam explicitamente a atitude do atropelador, ao invés de simplesmente criticar - o que é justo e democrático - a forma como os ciclistas realizam sua manifestação. Ninguém está blindado contra críticas, mas enxergar aquele motorista como vítima e ver na sua ação um ato de justiça extrapola todos os limites do bom senso.
Do outro lado dessa batalha, duas mil pessoas protestaram nas ruas de Porto Alegre em solidariedade aos ciclistas, na noite desta terça-feira, 1º de março. E enquanto esse texto está sendo escrito, o Zero Hora, jornal gaúcho, acaba de noticiar que Ricardo Neis foi preso, horas depois de a juíza Rosane Michels ter decretado sua prisão preventiva. Justiça seja feita. E que a tolerância ganhe cada vez mais praticantes em nossa sociedade.
Retirado de http://www.jornalopcao.com.br/colunas/contradicao/o-odio-inexplicavel-contra-quem-quer-mudar-o-mundo em 05/03/2011












