Em todos os sentidos, viver é estar em movimento, decorrendo daí que a restrição da mobilidade significa perda da qualidade de vida. Todos aqueles que precisam sair de casa, todos os dias ou ocasionalmente, para ir ao trabalho, à escola ou para executar outros afazeres, sabem o valor de deslocar-se com comodidade, agilidade e segurança, seja utilizando a modalidade que escolheram, seja aquela que têm à disposição.
Fica claro, assim, que a maior parte da população brasileira vive descontente... Motoristas e usuários do transporte público rosnam paralisados no trânsito, iludidos de que um dia haverá um sistema viário que comporte cada um no seu carro. E ciclistas e pedestres (e o que dizer dos cadeirantes?), espremidos entre as máquinas, sendo tratados como intrusos.
Tudo isso pode - e, na verdade, precisa - ser diferente. Para ilustrar, tomemos apenas a contribuição que podem dar aqueles que fazem viagens de até 8 km. A bicicleta é, sabidamente, um veículo muitíssimo eficiente em curtas e médias distâncias: ágil, está sempre à mão, permite o acesso porta-a-porta, fácil de estacionar, corta caminho, dispensa habilitação etc. Em distâncias de até 8 km, mesmo em cidades européias, onde o transporte público é mais eficiente e o sistema viário tem maior capacidade de carga, isso significa que, levando-se em conta apenas o fator tempo, ela se equivale ou supera todas as demais modalidades.
Qual o alcance disso? 95% dos municípios brasileiros têm população de até 100.000 habitantes, cujos perímetros urbanos não ultrapassam 8 km de diâmetro. Desta forma, ressalvadas as condições topográficas e atmosféricas, qualquer ciclista em condições físicas medianas pode atravessar essas cidades em não mais do que 40 minutos - e estamos autorizados a conceber que apenas uma parcela diminuta da população necessita cruzar diariamente uma cidade de ponta a ponta...
A situação é mais complicada nos demais 5% dos municípios, pois neles moram nada menos do que 53% dos brasileiros: vários desses municípios, em conurbação metropolitana, atingem 20, 40 e até 60 km de diâmetro, como é o caso da grande São Paulo. Ainda assim existe uma determinada quantidade de deslocamentos diários, conhecível através de pesquisas Origem-Destino - mas que podemos acreditar que seja importante -, que está circunscrita nessa área ótima para o ciclismo.

Este ponto de vista é muito didático para obter o apoio de toda a sociedade para a constituição de cidades cicláveis. Se for permitido e estimulado o uso da bicicleta nos trajetos onde ela é eficiente para as pessoas, ela também será vantajosa para a sociedade, pois a criação de novos ciclistas significa maior autonomia de deslocamento, melhoria da economia familiar, mais pontualidade no trabalho, diminuição dos congestionamentos, dos acidentes, dos custos hospitalares e dos gastos públicos com infraestrutura viária.
As cidades pequenas e médias têm a oportunidade de pular a "etapa dos erros" cometidos pelas cidades grandes e adotar um modelo de desenvolvimento voltado para a eficiência social dos transportes, consolidando uma rede de transporte público bem integrada com adequadas estruturas de acolhimento aos ciclistas e pedestres - bicicletários, ciclovias e ciclofaixas, vias compartilhadas, calçadas acessíveis, moderadores de tráfego etc.
Já as cidades grandes têm desafios maiores, mas não insuperáveis; nestas cidades, trens e metrôs, com as necessárias estruturas de integração intermodal, são requisitados para dar conta da massa; mas, como podemos identificar várias centralidades nessas cidades, elas precisam ser abordadas regionalmente e terem seus sistemas viários adaptados para que os deslocamentos de curta e média distância não dependam de ônibus ou de carro - e o encaixe entre estas estruturas viárias cicloinclusivas, formando uma rede e abrangendo toda a cidade, permitirá àqueles com maior fôlego, ou forçados por qualquer necessidade, pedalarem distâncias maiores para darem conta de seus afazeres.
A bicicleta não é a solução para todos os problemas da mobilidade urbana, mas a cidade não pode renunciar à grande contribuição que ela está, comprovadamente, habilitada a dar: a de facilitar a vida, em todos os sentidos, em curtas e médias distâncias.
André Geraldo Soares é Coordenador de Comunicação da ViaCiclo
Artigo originalmente publicado na Revista Bicicleta - Ano 1, nº 2 - Dezembro/2010 - Pag.20-21













Comentario
2011-04-0705:45:00 Leitores, repassem essa reportagem para quem não anda de bike. Com informação a população acaba abrindo a mente, as barreiras vão sendo gradativamente quebradas e haverá cada vez mais apoio.