Para que a bicicleta possa cumprir plenamente as funções às quais está habilitada, as cidades, sobretudo as médias e grandes, precisam de estruturas especialmente desenhadas para ela. Sem a instalação de vias ciclísticas e de bicicletários, sem medidas para o compartilhamento seguro com o trânsito de motorizados e sem equipamentos de integração com o transporte coletivo, a bicicleta não será o veículo eficiente que pode ser.
Assim sendo, é necessário efetuar um planejamento viário e uma gestão de tráfego que abarque toda a cidade, considerando as especificidades de cada categoria de via e o tipo de uso do solo predominante em cada região.
Fala-se, neste sentido, na configuração de uma rede cicloviária municipal integrada, que una diversas micro-redes em unidades territoriais como bairros ou distritos. Em 2010, visando contribuir com o conhecimento e o debate sobre esta questão, a ViaCiclo desenvolveu um projeto para averiguar a potencialidade da noção de bacia cicloviária como unidade de planejamento da mobilidade ciclística urbana.
O projeto "Bacias cicloviárias: interpretação e aplicação em Florianópolis"* desenvolveu as propostas lançadas pelo então Coordenador do GT Bicicleta da ANTP - Associação Nacional de Transportes Públicos Sérgio Luis Bianco e posteriormente avançadas, por caminho próprio, pelo professor de Geografia da Universidade Federal de Santa Catariana Elson Pereira e sua então orientanda do curso de mestrado Roberta Raquel.
As vias ciclísticas são, basicamente, de 4 tipos, de acordo com a hierarquia da via definida no Plano Diretor municipal, a saber:
- Ciclovia: via exclusiva ao tráfego de bicicletas, com traçado independente das ruas ou delas isolada através de barreira física (mureta, canteiro, blocos, cerca, balizas ou similares); necessária em vias arteriais ou alimentadoras, onde a velocidade regulamentar dos veículos motorizados é igual ou superior a 60 km/h;
- Ciclofaixa: via exclusiva ao tráfego de bicicletas, contígua às ruas, mas delas destacadas através de pintura no pavimento e/ou tachões reflexivos, podendo também ocorrer sobre a calçada; adequada a vias coletoras, que ligam as vias locais às vias de maior fluxo, com velocidade regulamentar para os motorizados entre 40 e 50 km/h;
- Via sinalizada: via regulamentada através de sinalização para o ciclista compartilhar o passeio com os pedestres ou a rua com os veículos motorizados - reúne todas as vias não enquadráveis nas categorias anteriores; para casos especiais das vias de maior fluxo, arteriais ou coletoras, onde não é possível, por limitações arquitetônicas, ambientais ou infraestruturais, a instalação de ciclovias ou ciclofaixas; é necessário diminuir a velocidade dos veículos motorizados, para o quê a instalação de estruturas do tipo traffic calming é recomendada;
- Via de tráfego geral - ou Via compartilhada: todas as ruas (vias públicas) que, por direito, podem ser utilizadas por ciclistas; adequada para as vias locais, que servem às residências e as ligam às vias coletoras; neste caso, a velocidade da via deve ser limitada a 30 km/h - normalmente tais vias são denominadas de Zona 30.
Tais vias devem formar uma rede ou sistema integrado, tanto para os descolamentos internos aos bairros quanto para os deslocamentos entre estes e em direção ao centro da cidade. 95% das cidades brasileiras possuem até 100.000 habitantes, as quais possuem, no máximo, 8 km de diâmetro, uma extensão onde a bicicleta é um veículo muitíssimo eficiente. Entretanto, as demais cidades brasileiras, onde vivem 53% da população possuem diâmetros bem maiores, tornando obrigatório um tratamento especial para a rede cicloviária de acordo com as micro-centralidades existentes na cidade.
Aqui entra em cena a proposta de bacia cicloviária. Tendo em conta que a maior parte dos bairros possui uma convergência de suas centralidades para áreas planas, que possuem uma demanda de usuários própria e estão circunscritas em áreas de pequeno a médio diâmetro, pode ser aplicado um conceito que integra a base territorial urbana com a base geomorfológica natural.
Para Sérgio Bianco, bacia cicloviária é um "conceito emprestado do conceito geográfico de bacia hidrográfica, a área de abrangência funciona como uma bacia cicloviária, ou seja, a área contida dentro dos limites extremos que um sistema cicloviário deixa de ter interesse para um ciclista utilizá-lo seja pela distância, ou seja, por um limite físico. A importância desse conceito é que os planejadores e executores do programa possam, além de preparar toda aquela região para o uso da bicicleta, também estabelecer um processo de comunicação com todos os ciclistas usuários do sistema"
Em uma bacia hidrográfica a água provém de arroios e ribeirões dirigindo-se a rios caudalosos; em uma bacia cicloviária, geralmente, os ciclistas convergem das ruas que servem as residências e se enveredam para as avenidas e vias expressas que conectam as centralidades dos bairros e destes com o centro.
Bacia cicloviária é uma unidade de planejamento e gestão cicloviária, uma estratégia de abordagem da mobilidade urbana que circunscreve e denomina a rede cicloviária, facilitando a análise da realidade e o planejamento infraestrutural e de gestão de tráfego.
A ViaCiclo aplicou a proposta de análise das bacias cicloviárias a duas regiões da cidade de Florianópolis, a Bacia do Itacorubi e a Planície do Campeche, ambas compostas de 9 bairros. A primeira foi denominada, pela pesquisa, de Bacia Cicloviária do Itacorubi; a segunda foi denominada de Bacia cicloviária do Campeche.
A proposta baseou-se em visitas de campo e levantamento fotográfico que, juntamente com o conhecimento empírico por parte dos pesquisadores da ViaCiclo acerca das características e do fluxo de cada via determinou a proposta do tipo de via ciclística a ser instalado. Um levantamento aprofundado, contendo contagem volumétrica e aferição do dimensionamento de cada via demanda recursos que apenas o poder público tem condições de dispor, motivo pelo qual a proposta compõe-se apenas com um esboço esquemático da rede a ser instalada.
As vias ciclísticas foram desenhadas em mapa do provedor Google Maps; adicionalmente, foram estimados os custos das vias, de acordo com estudo efetuado pelo Arquiteto Antônio Carlos de Mattos Miranda. Os resultados estão expressos na tabela a seguir:
|
TIPO DE VIA |
|
TOTAL |
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|
Quantidade |
Extensão (m) |
Custo Estimado (R$) |
|
|
Ciclofaixa |
18 |
20.570 |
2.972.404,16 |
|
Ciclovia |
25 |
40.830 |
5.659.839,40 |
|
Total |
63 |
61.400 |
8.632.243,56 |
|
Média por via |
1.428 |
200.749,85 |
|
Além das vias ciclísticas propostas, seguiu-se a consequente recomendação da oficialização das demais vias públicas como Vias Compartilhadas, cujo custo de sinalização ainda deve ser estimado. Adicionalmente, para facilitar o uso da bicicleta nos bairros, acesso aos centros econômicos importantes e integração intermodal com o transporte coletivo, foram sugeridos 6 bicicletários públicos em ambas bacias cicloviárias.
Quando confrontado com o Orçamento Geral do município, verificamos que o custo de implantação de tal importante infraestrutura, que qualifica enormemente a mobilidade urbana e a inclusão social, não representaria mais do que 7,5% de todos os recursos destinados a obras viárias (ou 0,63% de todo o Orçamento). Uma projeção bastante razoável permite-nos compreender que com apenas este percentual por ano, em 10 anos todo o município de Florianópolis estaria coberto por uma malha cicloviária composta de diversas bacias cicloviárias.
O tratamento da questão em termos de bacias cicloviárias facilita a compreensão das unidades de planejamento não apenas pelos gestores públicos, mas também pela comunidade, que pode ver neste tipo de tratamento uma identidade que aglutine as características de seu bairro ou distrito, bem como os seus interesses e modos de vida.
* Acesse o Relatório completo do projeto, referências bibliográficas, mapas e fotos em http://www.viaciclo.org.br/portal/atividades/bacias
- André Geraldo Soares é Educador, sociólogo, Coordenador de Comunicação da ViaCiclo - Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis
- Roberta Raquel é Geógrafa, professora do Instituto Federal Catarinense Camboriú
- A Pesquisa "Bacias cicloviárias: uma proposta de unidade de planejamento para a mobilidade ciclística* foi financiada pelo ITDP em convênio com o Sustran-Lac e Instituto Ciudad Viva.













Comentario
2011-08-1105:49:26 , sendo que por último o centro de Florianópolis deveria ser fechado para veículos particulares, sendo colocado a disposição veículos elétricos de menor dimensão como táxis centrais, o que viabilizaria uma cópia do projeto francês de mobilidade urbana. Para isso necessitamos de políticos de raça ( boa) que se emprenhem na Florianópolis do futuro, o que até hoje não tem limites para expansão imobiliária e demais.
2011-08-1105:48:23 Creio que a solução a médio-longo prazo para o problema de transito na ilha de Florianópolis seria a implantação do transporte por metrô de superfície, com um terminal central que receba o norte, sul, e continente, a lagoa devido a ao maciço montanhoso seria deveras oneroso na implantação, podendo ser integrado a partir de terminal Rio Tavares, com isso ou ficaria mais fácil implantar faixa de ciclovia na rota desse transporte longe da movimentação de veículos e que tem como objetivo a inicial a manutenção da linha pela operadora ou seria viável pela diminuição do trafego nas vias atuais, acho que qualquer movimento tem que ser em conjunto com a solução da locomoção na ilha.