"Quando é fácil culpar a vítima", por André Geraldo Soares

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adssfsafasfTornou-se corriqueiro relatar "acidentes de trânsito" explicando que "o motorista perdeu o controle do veículo", como se houvesse ali uma manobra do destino.

Antes de tudo é preciso dizer que a maior parte das colisões, capotamentos e atropelamentos não são acidentais - não são fortuitos nem casuais. Um acidente de trânsito ocorre quando o motorista, apesar de sua boa conduta, por exemplo, tem um dos pneus do seu veículo estourado, se depara com um animal atravessando a pista ou é acometido de um mal súbito. Mas quando tal motorista dirige em alta velocidade, arrisca-se em manobras perigosas ou negligencia a presença de ciclistas na pista, qualquer desastre daí advindo deve ser chamado de "crime de trânsito".

Os motoristas não deixam de responsabilizar o poder público, que oferece um sistema viário - urbano ou rodoviário - composto por estradas em mal estado e desprovido de estruturas adequadas para ciclistas e pedestres (sinalização, passeios acessíveis, redutores de velocidade, ciclovias). Bem, diríamos que quem dirige está plenamente ciente disso e que, portanto, deveria dirigir de acordo com as condições da via.

Mas os motoristas se interessam mais por duas outras políticas correntes, aplicadas pelo mesmo agente público: o estímulo ao uso do automóvel através da oferta de juros baixos e de obras viárias, complementado pela ausência de investimentos em transporte coletivo de qualidade; e a insignificante fiscalização, completada pela rara punição, das infrações. Aí fica fácil para o motorista desembaraçar-se: falta de ônibus, estradas ruins, ciclistas na pista, perda de controle do veículo e... sem penalização!

Nesse jogo de empurra-empurra entre governantes e motoristas, muito conveniente aos dois lados, quem fica somente com os prejuízos é a população desprovida de motor. Ciclistas, levando fininhas enquanto procuram algum cantinho para pedalar, e pedestres, se esquivando entre os interstícios de carros para alcançar as calçadas rachadas do outro lado da rua - onde vão esperar algum ônibus lotado, demorado, sujo e caro -, são alvos fáceis.

E quando alguns dos prejudicados decidem fazer a única coisa que dá resultado - a saber, organizar-se em manifestação pública -, levantam-se vozes de todos os lados para criticar o que eles chamam de "cerceamento do direito de ir e vir" - como se trafegar a 10 km/h, que é a velocidade dos ciclistas nessas circunstâncias, fosse alguma novidade no trânsito urbano!

O grotesco ataque no atacado aos ciclistas que participavam de uma Massa Crítica (ou Bicicletada) em Porto Alegre no dia 25 de fevereiro passado foi mais uma oportunidade para a prática da criminalização das vítimas. Ainda que a ampla maioria das manifestações tenham sido de reprovação ao motorista, não faltaram poréns, contudos e todavias em muitas delas. O estresse do trânsito, a ocupação da via e a falta de autorização das autoridades estiveram entre os motivos citados por aqueles que queriam compreender a atitude do condutor daquele carro preto.

Reza o Código de Trânsito Brasileiro que os veículos maiores são responsáveis pela incolumidade dos mais vulneráveis, entretanto não raro estes são culpabilizados por aqueles que lhes atropelam, por policiais ou por educadores - sim, a maioria das campanhas de educação para o trânsito ensina pedestres e ciclistas a concederem prioridade aos motorizados.

Em que pese a desatenção ou a postura de risco por parte de quem se locomove por suas próprias forças, toda morte de ciclistas e pedestres no trânsito precisa ser avaliada à luz - ou melhor seria às trevas - da inaptidão do sistema viário e do ordenamento do trânsito para acolher a todos com igualdade de segurança. Dito bem sinceramente: nossas cidades não foram feitas para pedestres e ciclistas. Além disso, estimulados pela publicidade, dentro dos carros temos mais indivíduos fazendo das ruas um ringue de disputa territorial do que cidadãos compartilhando um espaço público.

O trânsito e o sistema viário servem a toda a sociedade, portanto alcançar e manter sua qualidade é uma incumbência de toda a sociedade. Somente o Estado pode construir infraestrutura eficiente e segura para que o trânsito cumpra sua função social, mas não é ele que dirige cada carro. Atualmente o Estado serve os ditames econômicos, por isso os motoristas, ciclistas e pedestres que ansiarem pela democratização do trânsito precisam lhe indicar novos objetivos - caso contrário, o trânsito continuará tanto produzindo vítimas quanto culpando elas próprias por seu infortúnio.

 

André Geraldo Soares é Coordenador de Comunicação da ViaCiclo.

Artigo originalmente publicado na Revista Bicicleta - Ano 1, nº 5 - Abr-Mai/2011 - Pag. 28-29.

 

 

 

Última atualização ( Qua, 11 de abril de 2012 13:38 )  

Comentario 

  1. #1 Cesário Write e-mail
    2012-03-3104:59:58 Falta nesta página um botão de compartilhar no Twitter e outras redes…

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