"Transporte multimodal, já!", por Jose Roberto de Souza Dias

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dfasfsddfGovernos democráticos vêm apresentando uma dificuldade cada vez maior de exprimir a vontade do cidadão. Impõem medidas, sempre confiantes na infalibilidade de seus desejos, na tecnicidade de suas decisões ou, simplesmente, em razão de seus interesses particulares. Imperceptivelmente, como sempre ocorre com as mudanças, as estruturas de poder vão sendo contestadas, quando não representam a verdadeira vontade das sociedades que dizem ou que pretendem representar. Não percebem, entretanto, que os tempos são outros, que o cidadão está mais informado e vigilante e exige participação, quando se trata de ações que afetem o seu cotidiano e o de sua família.Já se foi o tempo em que os governantes podiam tomar decisões isoladas, sem consultar os eleitores contribuintes, principalmente quando recursos vultosos estão envolvidos ou a vida do cidadão possa ser afetada diretamente.

Florianópolis, capital de Santa Catarina, é uma da mais lindas cidades brasileiras de médio porte. Ultimamente essa beleza pode ser admirada com calma em vários pontos da ilha e do continente, em razão dos enormes congestionamentos que se formam nos horários de pico da manhã, da tarde e de início da noite.

O governo catarinense, preocupado com o problema, anunciou a construção de uma quarta ponte ligando a ilha ao continente. Na verdade trata-se de uma terceira, pois a primeira é um tipo de ponte museu há décadas fechada ao trânsito. A obra, inicialmente orçada em 900 milhões de reais necessitará do maior aterro já construído na Grande Florianópolis. Desde já se preveem várias dificuldades, inclusive ambientais e legais, uma vez que se pretende pagar parte da obra com a área proveniente do próprio aterro.

Mas este não é o problema principal. A ponte seguramente não resolverá o problema de congestionamento da Grande Florianópolis. Fruto de uma visão de curtíssimo prazo, apenas transferirá o congestionamento de um lado para o outro da ponte, agravando ainda mais a trafegabilidade das ruas e avenidas da Ilha e do Continente. A impressão que se tem é que os técnicos não foram consultados. É senso comum na área técnica que em cidades de médio porte a tendência é aumentar os congestionamentos quando simplesmente se alargam ruas ou se constroem obras de arte sem complementá-las com outros benefícios viários. Por uma razão muito simples, estimula-se a demanda reprimida dos que mantinham os seus carros na garagem para não enfrentar os congestionamentos e dos novos veículos que certamente entrarão em circulação.

Santa Catarina, de marcha ré na História, volta para os idos de 1920, quando Washington Luís afirmava que governar é construir estradas. Não importa se estrada ou ponte, no século XXI governar é, entre outras coisas, possibilitar um transporte público de qualidade, nos padrões internacionais de eficiência, segurança, higiene, respeitando o meio ambiente, oferecendo uma opção ao transporte individual e poluidor.  Foge ao compreensível uma ilha, com parte significativa banhada por águas calmas, não possuir um transporte público marítimo de qualidade, como ocorre em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, onde a conexão Rio de Janeiro a Niterói é mais do que um bom exemplo.

Uma área metropolitana de porte médio, como a Grande Florianópolis, não pode insistir em privilegiar o transporte individual e a permitir que o ônibus seja a única alternativa para os seus moradores. As experiências urbanas em todo o mundo e no Brasil especificamente, demonstram que a multimodalidade é a única forma para alavancar o desenvolvimento de uma cidade. Monopólios são coisas do passado, de uma época em que as pessoas pouco se deslocavam. Além do transporte marítimo público é necessário implantar o metrô leve, tipo monotrilho, que existe há mais de cem anos e hoje circula em cerca de cinquenta cidades do mundo.

O monotrilho utiliza pneus em vez de rodas de ferro, trafega em um único trilho de concreto ou metálico e pode ter composições de quatro a oito vagões e são mais leves e silenciosos que os do metrô e VLT. Este tipo de modal corre a uma altura de doze metros e os trilhos vencem vãos de trinta metros o que torna a construção muito mais leve e transparente do que as vias elevadas comuns. Suas linhas arrojadas e futurísticas valorizam as regiões por onde passa e compõem com o meio ambiente um quadro de exuberância, não interferindo com a dispersão dos poluentes gerados pelo tráfego de automóveis que podem continuar circulando embaixo.

Laurindo Junqueira Filho, da SPTrans, afirma que é o único meio de transporte existente que a via tem largura inferior à do veículo que, de certa forma, anda como que abraçado a esta. Em comparação a outros meios de transporte terrestre, exige menos desapropriações, seu custo de implantação equivale a um terço do metrô e sua construção é rápida com baixo índice de interferência na vida da cidade. Sua construção leva a metade do tempo do metrô.

A ligação Continente Ilha poderia perfeitamente ser feita pela Ponte Hercílio Luz, a um custo muito inferior ao da construção de uma nova ponte, sem a necessidade de realizar um super aterro, evitando-se dessa forma, possíveis riscos ao patrimônio ambiental. Evidente que a implantação do metrô leve, monotrilho, pressupõe a requalificação do sistema de ônibus que terá ampliado seu leque de ação, pois somente este, tem a capacidade de prestar o serviço complementar porta a porta, levando seu usuário até o destino final.

O monotrilho por suas características pode entrar dentro dos shoppings, das universidades, dos estádios e de outros centros de demanda de passageiros. As estações, terminais e pátios de manobra exigem uma mão de obra específica que será formada na região da Grande Florianópolis, o que significa um aumento substancial de vagas no mercado de trabalho. Por outro lado, estimulará a indústria catarinense nos diversos ramos de atividade. Podendo, inclusive desenvolver seus laboratórios de pesquisa científica e técnica junto ao Sapiens Parque, na região de Canasvieiras.

Neste início da segunda década do século XXI, na era das redes sociais com rápidas mobilizações populares em todo o planeta, é um equívoco interferir na vida das pessoas sem lhes oferecer a oportunidade de participar na construção de seus próprios caminhos. Transporte público é assunto muito sério para ser pensado, planejado e implantado por técnicos e governantes à revelia dos principais interessados, os cidadãos catarinenses. Em assuntos como este, necessário se faz uma consulta popular que vá muito além de uma simples audiência pública.

 

Jose Roberto de Souza Dias é Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP, Professor Adjunto da UFSC, criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes e foi diretor do Departamento Nacional de Trânsito - Denatran. Secretario Executivo do Gerat, da Casa Civil da Presidência da República, Diretor de Planejamento da Secretaria de Transportes do Rio Grande do Sul, Presidente do Instituto Chamberlain de Estudos Avançados e membro do Conselho Deliberativo do Monatran - Movimento Nacional de Educação no Trânsito.

 

Retirado de http://www.monatran.org.br/?pg=artigo&cod=101 em 06/09/11

 

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