"Como ter sucesso na integração intermodal bicicleta-ônibus", por André Geraldo Soares

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sdffaafA integração intermodal entre a bicicleta e o ônibus somente será bem sucedida se houver vontade política por parte do poder público, o que só poderá ser conquistada através da intervenção da sociedade civil - é o que demonstra a pesquisa "Bicicletários nos terminais do transporte público de Florianópolis: realidade e perspectivas", executada pela ViaCiclo em 2010*.

Apesar da sociedade global ainda continuar investindo rápida e pesadamente no transporte automotor individual, em diversos países pessoas e instituições vão se dando conta de que esse modelo atenta contra a democracia, a qualidade de vida, a sustentabilidade ambiental e o bom senso.

É sabido que a maior eficiência econômica, energética, espacial, de segurança e de tempo para prover o deslocamento da população dentro de uma cidade é conseguida através dos meios de transporte coletivos - ônibus, trem, metrô e, onde possível, barco etc. - e não motorizados - a pé, de bicicleta e, a critério, skate, patins etc.

dasfafdUma cidade que deseje conseguir essa eficiência precisa, então, investir recursos e técnicas não apenas para prestigiar e facilitar a vida daqueles que já se deslocam de forma coletiva ou não motorizada, mas, principalmente, para atrair novos usuários para as mesmas. Mais do que isso, tais investimentos devem promover a integração entre ambas.

Nas curtas e médias distâncias, para a maioria dos afazeres e para a maioria das faixas etárias e outras condições pessoais, um calçado e/ou uma bicicleta são suficientes. Mas em distâncias maiores, ou em condições de intempérie ou situações especiais, torna-se necessário recorrer ao transporte coletivo.

Mas tanto em uma quanto em outra situação, a eficiência será maior se ambos operarem integradamente: no início da viagem, alcançar um terminal de ônibus usando a bicicleta e/ou, no final da viagem, perfazer a pedal o trajeto entre o terminal e o destino.

Por isso necessitamos políticas públicas adequadas, a saber: vias públicas bem sinalizadas e com velocidade regulamentar dos motorizados compatível com a segurança dos ciclistas; respeito por parte dos motoristas, conseguida através de programas educativos continuados e de sistemática fiscalização - e autuação, sempre que necessário - por parte da autoridade de trânsito; vias ciclísticas exclusivas seguras e com adequado padrão técnico, sejam ciclofaixas ou ciclovias; passeios públicos bem dimensionados, sem obstáculos e acessíveis às pessoas com deficiência; corredores exclusivos para os ônibus não ficarem presos em congestionamentos; terminais de ônibus bem localizados e equipados, complementados por pontos/abrigos de passageiros confortáveis; bicicletários adequados, junto aos terminais de ônibus, dotados de controle de acesso e segurança patrimonial e com integração tarifária com o transporte coletivo.

Tal sistema pode ser constituído ao longo do tempo, mas para tanto é necessário um corpo técnico e planejamento urbano integrado, o que não acontece em Florianópolis. Dentre todas essas políticas citadas, Florianópolis oferece apenas algumas vias ciclísticas desconectadas e terminais de ônibus. Uma vez que as vias ciclísticas têm sido avaliadas pelo projeto Ciclobservatório - Observatório da Mobilidade Ciclística de Florianópolis, a ViaCiclo investiu no conhecimento da realidade dos bicicletários nos Terminais de Integração do Transporte Coletivo (TIs).

O interesse principal é compreender porque os bicicletários nos TIs não deram certo: porque não foram projetados em todos os TIs, porque não foram construídos naqueles que foram projetados e porque não foram postos em funcionamento naqueles TIs em que foram construídos.

A Tabela 1 demonstra que foram projetados 9 TIs, dos quais apenas 6 continuam em funcionamento; que foram projetados bicicletários em apenas 5 TIs, mas apenas 3 foram construídos; e que, finalmente, apenas um funciona precariamente, sem controle de acesso, permanecendo abandonado e sem as mínimas condições de segurança.

Tabela 1 - Situação dos Terminais de Integração e dos Bicicletários

TERMINAL DE INTEGRAÇÃO

BICICLETÁRIO

UNIDADE

SITUAÇÃO ATUAL

PROJETADO

CONSTRUÍDO

SITUAÇÃO ATUAL

TICEN

Ativo

Não

Não

Inexistente

TIRIO

Ativo

Sim

Não

Inexistente

TILAG

Ativo

Sim

Sim

Funciona precariamente, sem administração e sem segurança

TICAN

Ativo

Sim

Sim

Desativado. O prédio foi concedido para o Corpo de Bombeiros

TISAN

Ativo

Sim

Sim

Desativado. O prédio foi concedido para a Intendência de Santo Antônio de Lisboa

TITRI

Ativo

Sim

Não

Inexistente

TISAC

Desativado

Não

Não

Inexistente

TICAP

Desativado

Não

Não

Inexistente

TIJAR

Desativado

Não

Não

Inexistente

Para compreender a situação, a ViaCiclo entrevistou um conjunto variado de especialistas: representantes dos operadores público (SMTMT - Secretaria Municipal de Transporte, Mobilidade e Terminais de Florianópolis) e privados do Sistema Integrado do Transporte Coletivo (Setuf - Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo de Florianópolis e Cotisa - Companhia Operadora de Terminais de Integração S.A.), do órgão público de planejamento responsável pelo projeto dos Bicicletários nos TIs (Ipuf - Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), de uma instituição de ensino e pesquisa (Udesc - Universidade do Estado de Santa Catarina) e de uma empresa privada consultada para operar os bicicletários nos TIs (Della Bikes - Loja e Oficina de Bicicletas).

Foi apresentado aos especialistas um quadro avaliativo geral para aferir a qualidade da integração intermodal em Florianópolis, o que resultou em uma avaliação bastante negativa, exposta na Tabela 2, demonstrando a inexistência de uma política de desenvolvimento cicloviário no município.

Tabela 2 - Avaliação da integração intermodal em Florianópolis

QUESTÕES DE AVALIAÇÃO

AVALIAÇÃO

1. Estacionamento de curto e médio prazo em terminais e abrigos

1,00

2. Estações de serviço para ciclistas, incluindo aluguel, conserto, reposição, ducha, armário e informações sobre rotas

0,00

3. Os ônibus possuem racks para transportar bicicletas, normalmente no exterior

0,00

4. Permite-se bicicletas a bordo: só no horário fora de pico (3); a toda hora (4); existem facilidades especiais (5)

0,00

5. Vias ciclísticas permitem acessar facilmente os terminais e estações de transporte público

0,14

6. Bicitaxis e/ou bicicletas públicas facilitam entrar e sair de terminais e estações de ônibus

0,00

7. Facilidades para ciclistas em terminais e estações, especialmente elevadores, rampas etc.

0,57

8. Facilidades educativas ou outras que fomentem o uso de bicicletas e triciclos

0,29

9. Outras políticas de fomento à cultura cicloamistosa (Ex: um mesmo órgão coordena transporte público e ciclismo)

0,29

AVALIAÇÃO MÉDIA GERAL

0,25

Pontuação: 0 = não existe nada; 1 = existem facilidades mínimas; 3 = existem facilidades de qualidade razoável na metade do sistema de transporte público; 5 = existe uma ampla gama de facilidades de alta qualidade e alto nível de integração.

Em seguida, um conjunto de questões, para respostas discursivas, buscou compreender as responsabilidades e incumbências, detalhes do processo de planejamento, construção e gestão, problemas enfrentados, medidas para corrigir o insucesso dos bicicletários nos TIs de Florianópolis e propostas para tornar o sistema eficiente.

As entrevistas revelaram, em linhas gerais, a seguinte situação acerca do projeto e da operacionalização dos bicicletários nos TIs:

  • Não há consenso sobre as responsabilidades e atribuições acerca da construção e da gestão dos bicicletários;
  • O modo de operar os bicicletários não foi definido no projeto;
  • São desconhecidos os motivos pelos quais não foram projetados bicicletários em todos os terminais;
  • Não foi destacado pessoal para gerir os bicicletários e zelar pela segurança das bicicletas;
  • A distância entre os bicicletários e os TIs foi um dos fatores da baixa adesão dos ciclistas;
  • Não houve negociação entre os entes públicos e privados gestores dos TIs para a operacionalização dos bicicletários;
  • Não houve medidas para tentar corrigir os erros de projeto;
  • O projeto dos bicicletários não se basearam em conhecimento da realidade e aspirações dos usuários (não houve qualquer pesquisa prévia);
  • A gestão dos bicicletários por empresas privadas externas ao sistema é impraticável;
  • As informações acerca dos projetos foram perdidas com a troca de prefeitos;
  • A mobilidade urbana não é planejada ou gerida por meio de Políticas de Estado, mas de projetos governamentais pontuais e descontinuados.

Deste modo podemos inferir que, para serem eficientes os projetos de integração intermodal, o gestor público deve agir de forma contrária às formas que foram reveladas pelos especialistas.

Mesmo assim, adicionalmente, os especialistas consultados expuseram os seguintes pontos de vista para o sucesso de qualquer projeto de bicicletários em terminais:

  • Vontade política por parte dos administradores públicos municipais;
  • Planejamento integrado com a construção de rede cicloviária para dar acesso aos TIs;
  • Integrar física e economicamente os bicicletários aos TIs;
  • Programas educativos para a conquista de novos usuários;
  • Oferecer segurança viária para ciclistas.dfasdsf

Se somarmos estas informações e pontos de vista à legislação municipal que obriga a construção de bicicletários nos TIs - e que autoriza a cobrança de tarifa pelo serviço - e à experiência bem sucedida - e de fácil obtenção - de outros países, não podemos deixar de reafirmar que a integração intermodal entre bicicleta e transporte coletivo, para a qual os bicicletários em TIs sejam talvez as medidas mais simples, depende preponderantemente do interesse dos gestores públicos.

A legislação está disponível, a tecnologia está à mão, os recursos financeiros são relativamente baixos - e ao mesmo tempo a situação do trânsito na cidade torna-se cada vez mais insuportável.

Portanto, o que está faltando? Aqui acrescentamos a proposta de dois dos especialistas entrevistados: "a sociedade civil precisa demandar o poder público". Os usuários, os representantes comunitários, os indivíduos e instituições da sociedade civil precisam aumentar a quantidade e aprimorar a qualidade das requisições ao poder público, o que significará, adicionalmente o fortalecimento da democracia da gestão da vida social.

 

* Educador, sociólogo, Coordenador de Comunicação da ViaCiclo - Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis

** Ver o relatório do projeto, entrevistas na íntegra, mapas e fotos em http://www.viaciclo.org.br/portal/atividades/bici-terminais

- A Pesquisa "Bicicletários nos terminais do transporte público de Florianópolis: realidade e perspectivas", executada pela ViaCiclo em 2010" foi financiada pelo ITDP em convênio com o Sustran-Lac e Instituto Ciudad Viva.

 

 

Florianópolis, Janeiro de 2011

 

 

 

Última atualização ( Qua, 11 de abril de 2012 13:36 )  

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