A integração intermodal entre a bicicleta e o ônibus somente será bem sucedida se houver vontade política por parte do poder público, o que só poderá ser conquistada através da intervenção da sociedade civil - é o que demonstra a pesquisa "Bicicletários nos terminais do transporte público de Florianópolis: realidade e perspectivas", executada pela ViaCiclo em 2010*.
Apesar da sociedade global ainda continuar investindo rápida e pesadamente no transporte automotor individual, em diversos países pessoas e instituições vão se dando conta de que esse modelo atenta contra a democracia, a qualidade de vida, a sustentabilidade ambiental e o bom senso.
É sabido que a maior eficiência econômica, energética, espacial, de segurança e de tempo para prover o deslocamento da população dentro de uma cidade é conseguida através dos meios de transporte coletivos - ônibus, trem, metrô e, onde possível, barco etc. - e não motorizados - a pé, de bicicleta e, a critério, skate, patins etc.
Uma cidade que deseje conseguir essa eficiência precisa, então, investir recursos e técnicas não apenas para prestigiar e facilitar a vida daqueles que já se deslocam de forma coletiva ou não motorizada, mas, principalmente, para atrair novos usuários para as mesmas. Mais do que isso, tais investimentos devem promover a integração entre ambas.
Nas curtas e médias distâncias, para a maioria dos afazeres e para a maioria das faixas etárias e outras condições pessoais, um calçado e/ou uma bicicleta são suficientes. Mas em distâncias maiores, ou em condições de intempérie ou situações especiais, torna-se necessário recorrer ao transporte coletivo.
Mas tanto em uma quanto em outra situação, a eficiência será maior se ambos operarem integradamente: no início da viagem, alcançar um terminal de ônibus usando a bicicleta e/ou, no final da viagem, perfazer a pedal o trajeto entre o terminal e o destino.
Por isso necessitamos políticas públicas adequadas, a saber: vias públicas bem sinalizadas e com velocidade regulamentar dos motorizados compatível com a segurança dos ciclistas; respeito por parte dos motoristas, conseguida através de programas educativos continuados e de sistemática fiscalização - e autuação, sempre que necessário - por parte da autoridade de trânsito; vias ciclísticas exclusivas seguras e com adequado padrão técnico, sejam ciclofaixas ou ciclovias; passeios públicos bem dimensionados, sem obstáculos e acessíveis às pessoas com deficiência; corredores exclusivos para os ônibus não ficarem presos em congestionamentos; terminais de ônibus bem localizados e equipados, complementados por pontos/abrigos de passageiros confortáveis; bicicletários adequados, junto aos terminais de ônibus, dotados de controle de acesso e segurança patrimonial e com integração tarifária com o transporte coletivo.
Tal sistema pode ser constituído ao longo do tempo, mas para tanto é necessário um corpo técnico e planejamento urbano integrado, o que não acontece em Florianópolis. Dentre todas essas políticas citadas, Florianópolis oferece apenas algumas vias ciclísticas desconectadas e terminais de ônibus. Uma vez que as vias ciclísticas têm sido avaliadas pelo projeto Ciclobservatório - Observatório da Mobilidade Ciclística de Florianópolis, a ViaCiclo investiu no conhecimento da realidade dos bicicletários nos Terminais de Integração do Transporte Coletivo (TIs).
O interesse principal é compreender porque os bicicletários nos TIs não deram certo: porque não foram projetados em todos os TIs, porque não foram construídos naqueles que foram projetados e porque não foram postos em funcionamento naqueles TIs em que foram construídos.
A Tabela 1 demonstra que foram projetados 9 TIs, dos quais apenas 6 continuam em funcionamento; que foram projetados bicicletários em apenas 5 TIs, mas apenas 3 foram construídos; e que, finalmente, apenas um funciona precariamente, sem controle de acesso, permanecendo abandonado e sem as mínimas condições de segurança.
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Tabela 1 - Situação dos Terminais de Integração e dos Bicicletários |
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TERMINAL DE INTEGRAÇÃO |
BICICLETÁRIO |
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UNIDADE |
SITUAÇÃO ATUAL |
PROJETADO |
CONSTRUÍDO |
SITUAÇÃO ATUAL |
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TICEN |
Ativo |
Não |
Não |
Inexistente |
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TIRIO |
Ativo |
Sim |
Não |
Inexistente |
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TILAG |
Ativo |
Sim |
Sim |
Funciona precariamente, sem administração e sem segurança |
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TICAN |
Ativo |
Sim |
Sim |
Desativado. O prédio foi concedido para o Corpo de Bombeiros |
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TISAN |
Ativo |
Sim |
Sim |
Desativado. O prédio foi concedido para a Intendência de Santo Antônio de Lisboa |
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TITRI |
Ativo |
Sim |
Não |
Inexistente |
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TISAC |
Desativado |
Não |
Não |
Inexistente |
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TICAP |
Desativado |
Não |
Não |
Inexistente |
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TIJAR |
Desativado |
Não |
Não |
Inexistente |
Para compreender a situação, a ViaCiclo entrevistou um conjunto variado de especialistas: representantes dos operadores público (SMTMT - Secretaria Municipal de Transporte, Mobilidade e Terminais de Florianópolis) e privados do Sistema Integrado do Transporte Coletivo (Setuf - Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo de Florianópolis e Cotisa - Companhia Operadora de Terminais de Integração S.A.), do órgão público de planejamento responsável pelo projeto dos Bicicletários nos TIs (Ipuf - Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), de uma instituição de ensino e pesquisa (Udesc - Universidade do Estado de Santa Catarina) e de uma empresa privada consultada para operar os bicicletários nos TIs (Della Bikes - Loja e Oficina de Bicicletas).
Foi apresentado aos especialistas um quadro avaliativo geral para aferir a qualidade da integração intermodal em Florianópolis, o que resultou em uma avaliação bastante negativa, exposta na Tabela 2, demonstrando a inexistência de uma política de desenvolvimento cicloviário no município.
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Tabela 2 - Avaliação da integração intermodal em Florianópolis |
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QUESTÕES DE AVALIAÇÃO |
AVALIAÇÃO |
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1. Estacionamento de curto e médio prazo em terminais e abrigos |
1,00 |
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2. Estações de serviço para ciclistas, incluindo aluguel, conserto, reposição, ducha, armário e informações sobre rotas |
0,00 |
|
3. Os ônibus possuem racks para transportar bicicletas, normalmente no exterior |
0,00 |
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4. Permite-se bicicletas a bordo: só no horário fora de pico (3); a toda hora (4); existem facilidades especiais (5) |
0,00 |
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5. Vias ciclísticas permitem acessar facilmente os terminais e estações de transporte público |
0,14 |
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6. Bicitaxis e/ou bicicletas públicas facilitam entrar e sair de terminais e estações de ônibus |
0,00 |
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7. Facilidades para ciclistas em terminais e estações, especialmente elevadores, rampas etc. |
0,57 |
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8. Facilidades educativas ou outras que fomentem o uso de bicicletas e triciclos |
0,29 |
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9. Outras políticas de fomento à cultura cicloamistosa (Ex: um mesmo órgão coordena transporte público e ciclismo) |
0,29 |
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AVALIAÇÃO MÉDIA GERAL |
0,25 |
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Pontuação: 0 = não existe nada; 1 = existem facilidades mínimas; 3 = existem facilidades de qualidade razoável na metade do sistema de transporte público; 5 = existe uma ampla gama de facilidades de alta qualidade e alto nível de integração. |
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Em seguida, um conjunto de questões, para respostas discursivas, buscou compreender as responsabilidades e incumbências, detalhes do processo de planejamento, construção e gestão, problemas enfrentados, medidas para corrigir o insucesso dos bicicletários nos TIs de Florianópolis e propostas para tornar o sistema eficiente.
As entrevistas revelaram, em linhas gerais, a seguinte situação acerca do projeto e da operacionalização dos bicicletários nos TIs:
- Não há consenso sobre as responsabilidades e atribuições acerca da construção e da gestão dos bicicletários;
- O modo de operar os bicicletários não foi definido no projeto;
- São desconhecidos os motivos pelos quais não foram projetados bicicletários em todos os terminais;
- Não foi destacado pessoal para gerir os bicicletários e zelar pela segurança das bicicletas;
- A distância entre os bicicletários e os TIs foi um dos fatores da baixa adesão dos ciclistas;
- Não houve negociação entre os entes públicos e privados gestores dos TIs para a operacionalização dos bicicletários;
- Não houve medidas para tentar corrigir os erros de projeto;
- O projeto dos bicicletários não se basearam em conhecimento da realidade e aspirações dos usuários (não houve qualquer pesquisa prévia);
- A gestão dos bicicletários por empresas privadas externas ao sistema é impraticável;
- As informações acerca dos projetos foram perdidas com a troca de prefeitos;
- A mobilidade urbana não é planejada ou gerida por meio de Políticas de Estado, mas de projetos governamentais pontuais e descontinuados.
Deste modo podemos inferir que, para serem eficientes os projetos de integração intermodal, o gestor público deve agir de forma contrária às formas que foram reveladas pelos especialistas.
Mesmo assim, adicionalmente, os especialistas consultados expuseram os seguintes pontos de vista para o sucesso de qualquer projeto de bicicletários em terminais:
- Vontade política por parte dos administradores públicos municipais;
- Planejamento integrado com a construção de rede cicloviária para dar acesso aos TIs;
- Integrar física e economicamente os bicicletários aos TIs;
- Programas educativos para a conquista de novos usuários;
- Oferecer segurança viária para ciclistas.

Se somarmos estas informações e pontos de vista à legislação municipal que obriga a construção de bicicletários nos TIs - e que autoriza a cobrança de tarifa pelo serviço - e à experiência bem sucedida - e de fácil obtenção - de outros países, não podemos deixar de reafirmar que a integração intermodal entre bicicleta e transporte coletivo, para a qual os bicicletários em TIs sejam talvez as medidas mais simples, depende preponderantemente do interesse dos gestores públicos.
A legislação está disponível, a tecnologia está à mão, os recursos financeiros são relativamente baixos - e ao mesmo tempo a situação do trânsito na cidade torna-se cada vez mais insuportável.
Portanto, o que está faltando? Aqui acrescentamos a proposta de dois dos especialistas entrevistados: "a sociedade civil precisa demandar o poder público". Os usuários, os representantes comunitários, os indivíduos e instituições da sociedade civil precisam aumentar a quantidade e aprimorar a qualidade das requisições ao poder público, o que significará, adicionalmente o fortalecimento da democracia da gestão da vida social.
* Educador, sociólogo, Coordenador de Comunicação da ViaCiclo - Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis
** Ver o relatório do projeto, entrevistas na íntegra, mapas e fotos em http://www.viaciclo.org.br/portal/atividades/bici-terminais
- A Pesquisa "Bicicletários nos terminais do transporte público de Florianópolis: realidade e perspectivas", executada pela ViaCiclo em 2010" foi financiada pelo ITDP em convênio com o Sustran-Lac e Instituto Ciudad Viva.
Florianópolis, Janeiro de 2011












