O amor, sentimento primevo, explica a vida mesmo daquele que diz que não o conhece. Desde os brucutus das cavernas até os pós-doutores da cátedra, o amor é um dos fios condutores da vida, da vida que cada um leva e do mundo da cultura onde ela transcorre. Nossa vida, no que ela depende de nós próprios, não é decidida apenas por escolhas racionais, mas por um fluxo contínuo e mesclado de sentimentos, raciocínios e imaginação. Do mesmo modo, a política, a economia e outros sistemas regulatórios da sociedade, longe de serem desenhados por sábias e ponderadas decisões, são impulsionados por paixões das mais diversas.
O amor é uma emanação, todos sabemos, nem sempre consciente, nem sempre transparente e que nem sempre produz resultados tão ternos quanto ele próprio. Basta lembrarmos que, assim como o ódio, dirige pessoas e povos a atrocidades: depositários de amor são mortos pelos seus adoradores, em amor à própria pátria se dizimam milhões no país vizinho.
Por isso não é regra dos amantes importarem-se com os efeitos colaterais da sua disposição emocional. Exemplificando, quem se declara, quem exalta, quem concorda com a máxima de que "brasileiro é apaixonado por carro" não se condói com as conseqüências sociais e ambientais da generalização dessa afeição. A atmosfera urbana é sufocante, atravessar uma rua é uma roleta russa e o dinheiro público é sugado pelas "obras de arte de engenharia", mas nada disso abala o relacionamento afetivo que brotou naturalmente no coração dos motoristas.
Naturalmente? Mas... nenhum amor nasce de estímulos? Glamorosos longa-metragens, excitantes outdoors ou sensacionalistas capas de jornais seriam nada mais do que testemunhas da vontade popular de se ter um carro? Destruir - ou sequer ter construído - o transporte público não estimula ninguém a "trair" o ônibus? É difícil acreditarmos que a escolha das ferramentas motorizadas seja motivada apenas pelas suas inegáveis utilidades. Primeiro porque em muitas circunstâncias e para diversos afazeres os demais meios de mobilidade também são igual ou superiormente úteis; e, depois, porque torna-se um martírio usufruir dessa utilidade quando se permanece imóvel sobre o asfalto. É difícil, pois, aceitarmos que esse casamento não tenha sido celebrado sem a garrucha do sogro.
A indústria da bicicleta também sabe que "a propaganda é a alma do negócio", por isso também não dispensa o apelo sentimental para vende-la, certo? Em partes - em partes do tempo. Somente os mais vividos dos leitores encontrarão recordações de publicidade de bicicleta em suas memórias - são raras as campanhas atualmente. Isso se deve, é claro, ao sobe e desce do mercado ciclístico (com previsão de incremento de 2% em 2011). Mesmo assim a bicicleta ainda vende, ainda é vista nas ruas - e de forma cada vez mais diferenciada -, e podemos ver nisso uma manifestação do amor: por um lado, as pessoas gostam de andar de bicicleta; por outro lado, o difundido gosto pelos carros torna impraticável o uso destes, forçando a busca de alternativas.
Com isso podemos ser autorizados a deduzir que a paixão ciclística é muito mais original do que a paixão motorizada. A bicicleta cativa desde a tenra idade - muito mais cedo que de carro se pula para o banco do condutor - e perdura - mesmo depois de motorizadas, muitas pessoas ainda mantém o apego pelos pedais. Inveja e ciúmes, acompanhantes indesejados do amor, também são associados à bicicleta: quem não tem
inveja daquele primo ou amigo que foi até a Patagônia de bicicleta ou daquela dona de casa que se esvai livremente por entre o congestionanento? Dentre os/as que não pedalam, quem não tem ciúme das tardes que o/a namorado/a passa se lambuzando pelas trilhas afora? Ah, e a dúvida "não sei se caso ou se compro uma bicicleta" simplesmente inexiste se a paixão de carne e osso também vive grudada na sua bicicleta. Tem coisa melhor do que pedalar junto com a namorada ou o marido? É desposório na certa!
O apreço pela bicicleta também permite a dedicação mais sincera a outras dimensões da nossa vida que não apenas a do transporte. Quem quiser demonstrar que seu carinho à natureza é maior do que uma estampa na camiseta pode fazê-lo pedalando; exercitar-se, no plano ou ladeiras acima, aumenta a vital auto-estima; o afeto à cidade significa que estamos dispostos a compartilhar o espaço público, e não a sequestrá-lo com uma ou duas toneladas de lata. Por isso tudo, seja quem adora ser ciclista, seja quem não gostaria de sê-lo por necessidade, está no coração de quem idoneamente ama o mundo que vale ser amado.
André Geraldo Soares é Coordenador de Comunicação da ViaCiclo.
Artigo originalmente publicado na Revista Bicicleta - Ano 1, nº 10 - Out/2011 - Pag. 18.












