"Vamos resolver isso lá na rua?", por André Geraldo Soares

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ddd"O ser humano é um animal competitivo por natureza", justificam-se tanto aqueles que passam a perna no colega de trabalho quanto aqueles que brigam nos estádios ou os que aterram os manguezais. Se lhes retrucamos que essa é uma posição um tanto individualista, logo ouviremos as defesas de que "eu quero o melhor para minha família", que "eu tenho amor pelo meu clube" e que "temos que preservar a espécie humana". É claro, é inegável que a disputa entre pessoas, corporações e países resultou em avanço científico, aumento do conforto material e também na ampliação da longevidade - mas apenas para usufruto dos vencedores. A privação dos vencidos é a condição da qualidade de vida dos vencedores.

No campo da mobilidade urbana encontramos ótimos exemplos do que significa essa fé na rivalidade. As montadoras de automóveis se dddfconfrontam para apresentar modelos que os bem sucedidos podem exibir a quem "não chegou lá". As prefeituras desse Brasil todo concorrem para ver quem oferece o pior sistema de transporte coletivo. Os condutores motorizados lutam entre si por cada centímetro do escasso espaço público. O saldo disso, todos conhecem: mortos e feridos, eliminação de habitats naturais, sequestro da cidade.

dfafasfDesde 2006, quando a Transporte Ativo a realizou pela primeira vez na capital fluminense, os ciclistas organizados de diversas cidades brasileiras vêm propondo uma competição de caráter distinto. Chamada de Desafio Intermodal, propõe demonstrar qual o melhor meio de transporte urbano não apenas para o indivíduo, mas principalmente para a sociedade e para a natureza.

O Desafio Intermodal é um teste comparativo da eficiência de diversas modalidades de mobilidade disponíveis na cidade. Dependendo da infraestrutura municipal e da capacidade dos organizadores, se envolvem na comparação desde helicóptero até pedestre, passando por carro e motocicleta, metrô e ônibus e diversos tipos de bicicleta - bem como a integração entre mais de um deles.

dfasdfffO funcionamento é simples: os usuários de todas as modalidades saem no mesmo momento de um ponto "A" com destino a um ponto "B" na hora do pico do trânsito de um dia da semana. O que acontece, frequentemente, é que a motocicleta ou a bicicleta chegam primeiro ao destino, revelando o meio de transporte mais rápido. Entretanto, o tempo de deslocamento ou a velocidade média são categorias de análise focados em um interesse específico do indivíduo.

Assim sendo, os ciclistas e demais desejosos da mobilidade sustentável e democrática propõem outras categorias visando aferir também os impactos que os meios de transporte utilizados exercem sobre a organização social e sobre o ambiente natural, entre as quais: emissão de gases poluentes, emissão de ruídos, consumo de energia, custo financeiro da viagem (combustível, estacionamento, tarifa de ônibus) e avaliação subjetiva dos desafiantes. É importante destacar que são comparados os valores alcançados apenas para a operação dos meios de transporte durante o trajeto; caso fossem aferidos os valores desde o processo de produção até a legalização e a manutenção dos veículos durante sua vida útil, os resultados seriam ainda mais desfavoráveis para as modalidades motorizadas individuais.

E não dá outra. Em Manaus ou em Balneário Camboriú, em São Paulo ou em Maceió os resultados se repetem: a bicicleta, mesmo quando chega depois (mas não muito depois) da motocicleta ou mesmo do carro, é o veículo mais eficiente para o deslocamento em curtas e médias distâncias (Relatórios e outras informações dos Desafios Intermodais brasileiros desde 2006 podem ser acessados em http://goo.gl/FgUEo). Rápido, faz a ligação de porta a porta, econômico, baratíssimo e ainda mantém limpos o ambiente e a consciência dos seus usuários. E os resultados só não são melhores - e o mesmo vale para o transporte público - devido a falta de investimentos públicos.

Os ciclistas já demonstram sua coragem pedalando em nossas agressivas ruas, mas são geralmente os dfdfdsfsmais pacifistas deles que não têm medo de desafiar os outros meios de transporte para o embate: "vamos lá, na rua, ver quem de nós é melhor? Melhor para todos?". Quem conhece o Desafio Intermodal sabe que sua metodologia ainda pode melhorar, mas não podemos esperar que as concessionárias de carros importados, as empreiteiras de viadutos ou as secretarias de obras venham acudir a comissão organizadora, de tão ocupadas que elas estão desafiando a razão, o bom senso e a ética da convivência. Sim, porque elas não poderão mudar a realidade: os modos de transporte motorizados individuais não podem ser os melhores porque não são possíveis para todos, e a imposição deles para o benefício de poucos sempre significará o prejuízo de todos.

 

André Geraldo Soares é Coordenador de Comunicação da ViaCiclo.

 

Artigo originalmente publicado na Revista Bicicleta - Ano 1, nº 11 - Nov/2011 - Pag. 22.

 

 

 

Última atualização ( Qua, 11 de abril de 2012 13:32 )  

Comentario 

  1. #2 Bodnar Write e-mail
    2012-02-1011:24:59 Fiquei muito feliz em ter Associação de Ciclousuarios que integrem os esforços para a mudança do transporte em Florianópolis. Que a Bicicleta ganhe seu lugar de respeito. Não esqueçamos do nosso amigo Emílio de Souza (aluno de medicina da UFSC) que usava a bicicleta como meio transporte.
  2. #1 Fábio FES Write e-mail
    2012-01-2006:06:43 Excelente texto e reflexão André. Parabéns!!!
    E que nossas pedaladas continuem firmes.
    Fábio (FES) - Clube de Cicloturismo do Brasil

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