Um dos principais especialistas mundiais em poluição do ar, o professor Paulo Saldiva, é enfático ao defender o uso da bicicleta como exercício físico e meio de transporte. Ele pratica aquilo que defende com diferenciado embasamento teórico. E pedala todos os dias a caminho do trabalho.
Durante quatro anos, Saldiva trocou a bike e as caminhadaspelo carro. Engordou 30 quilos e ficou estressado com o trânsito. Em 1999, voltou à bicicleta, retomou as corridas e não parou mais. Ele classificou sua decisão como "pequena contribuição para a qualidade do ar da cidade".
Paulo Hilário Nascimento Saldiva é médico com doutorado em Patologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, ele é professor titular de Patologia Pulmonar dessa mesma instituição, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP e bolsista de produtividade do CNPq, com pesquisas nas áreas de poluição do ar, fisiopatologia pulmonar, doenças respiratórias e mecânica respiratória. Saldiva também é pesquisador e professor do Departamento de Saúde Pública Ambiental da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Paulistano apaixonado, o medico nasceu no dia do IV centenário da cidade (25 de janeiro de 1954). Ciclista e corredor, ele ainda encontra tempo para um hobby: tocar gaita.
Saldiva trocou o carro pela bicicleta e usa o vestiário da USP para "virar médico": exemplo para departamentos de RH comprometidos com a qualidade de vida de seus colaboradores
O interesse pelos estudos sobre níveis e efeitos da poluição surgiu nas aulas com o professor titular da Faculdade de Medicina da USP, o húngaro Gyorgy Bohm, que foi pioneiro em pesquisa deste gênero no Brasil.
Laboratório - Os levantamentos feitos por Saldiva e suas equipes no que ele chama de "laboratório natural", que é a cidade de São Paulo, já chegaram a conclusões surpreendentes. Uma delas assusta: uma pessoa que vive na capital paulista morre até dois anos mais cedo do que alguém que mora numa cidade com ar de melhor qualidade. O médico tem, à mão, uma outra estatística alarmante: depois de um dia muito poluído, o número de mortes provocadas por doenças cardiovasculares aumenta de 10% a 12% em relação à média.
A poluição do ar também afeta a reprodução humana. Saldiva coordenou uma pesquisa pioneira que demonstrou o crescimento dos casos de aborto espontâneo. Ele cobra uma atualização da legislação ambiental, que é da década de 80. Pelos indicadores daquela época, a qualidade do ar na cidade de São Paulo é regular ou boa na maioria dos dias. Se os índices recomendados pela agência ambiental americana ou pela Organização Mundial da Saúde (OMS) forem tomados como parâmetro, o ar da capital paulista seria inadequado em quase 80% dos dias. Mesmo assim, apesar do aumento da frota (já são mais de 5 milhões de veículos) e do tamanho da cidade, houve uma queda de um terço em relação aos níveis de poluição da década de 70. "Isso mostra que existem soluções tecnológicas", declarou numa entrevista recente publicada na revista Kalunga (setembro/2009).
Saldiva coloca São Paulo na liderança do ranking das cidades mais poluídas do País, seguida pelo Rio de Janeiro. Porto Alegre e Belo Horizonte disputam o 3º lugar. Ambas têm níveis de má qualidade do ar superiores aos padrões da OMS.
Impacto econômico - A poluição atmosférica também impõe danos à saúde da economia. Num cálculo simples, se o paulistano gasta em média 2h10min por dia em deslocamentos, e a hora de trabalho pago rende em torno de R$ 10 para uma população economicamente de ativa de pouco mais de 6 milhões de habitantes, no mínimo, o impacto na produtividade, considerando apenas o tempo, sem falar na despesa com combustíveis, é de R$ 60 milhões.
Criativo, Saldiva inovou nas pesquisas do setor. Ele usa plantas coloridas, filtros de ar e ratos de laboratório para mensurar e reduzir os danos causados pela poluição do ar à saúde pública. A mudança na coloração de um tipo de vegetação presente em canteiros de ruas e avenidas serve de marcador para o nível de poluição da cidade. Uma estratégia que já foi adotada em outros municípios paulistas, como Cubatão, Santo André e São José dos Campos.
"Racismo ambiental" - Um estudo feito durante uma greve de ônibus e publicado numa revista que é referência científica mundial constatou uma queda significativa na emissão de fuligem. Para o especialista, se a legislação exigisse filtros mais "verdes" nos escapamentos dos coletivos, o problema seria, no mínimo, bastante reduzido. Medidas menos complexas também poderiam diminuir os males provocados pela poluição. A inspeção veicular para toda a frota, por exemplo, resultaria em economia impressionante no orçamento da saúde pública. Saldiva alerta que, em termos de combustíveis, o diesel é o maior poluidor, seguido pela gasolina e, por último, pelo etanol. Por isso, deve ser cobrada uma maior qualidade destes produtos, especialmente do diesel, que contém elevada taxa de enxofre.
O professor titular da USP sugere que há um "racismo ambiental" e o explica. "Uma pessoa parada no congestionamento, dentro de um carro moderno, com ar condicionado, recebe uma dose menor de poluentes em comparação a uma outra que está num ônibus com portas e janelas abertas".
A estrutura melhor do transporte público e o conseqüente desestímulo maior à utilização de carros, que, para ele, não ajudam em nada na vida do cidadão e ainda prejudicam a qualidade do ar, precisam ser priorizados.
Saldiva prevê que a situação só vai ser alterada, quando a mobilidade estiver completamente comprometida. Momento que, em função de índices de congestionamentos cada vez mais extensos em São Paulo, está bem perto de acontecer.
Entrevista
Ricardo Xavier Recursos Humanos - Pedalar numa cidade tão poluída quanto São Paulo faz bem à saúde?
Paulo Saldiva - Tenho certeza que o saldo é positivo para a saúde. Mover-nos em outros meios de transporte também nos expõe a poluentes atmosféricos. Na bicicleta, é possível fazer o trajeto em menor tempo (com menor exposição) associado aos benefícios da prática regular de esportes.
Ricardo Xavier RH - Pedalar num parque, como o Ibirapuera, não significa estar imune à poluição ao redor e, principalmente, à provocada pelos veículos automotores.
Saldiva - Infelizmente, mesmo em um parque, não estamos isentos da exposição aos poluentes. Essa bacia aérea é muito mais extensa que as bacias hidrográficas, fazendo com que a pluma de poluentes atinja distâncias bastante expressivas. Via de regra, as regiões periféricas dos parques, próximas às avenidas, têm níveis de poluição superiores às áreas mais centrais.
Ricardo Xavier RH - É viável adotar a bicicleta como alternativa de transporte público nas metrópoles? Se sim, por quê? Se não, quais os desafios?
Saldiva - Tenho certeza que sim. O maior desafio é a ausência de vias segregadas para o tráfego de bicicletas, expondo os ciclistas a perigos.
Ricardo Xavier RH - O senhor sofre com a falta de educação no trânsito?
Saldiva - Sim. Para a maioria dos motoristas, a bicicleta representa um transtorno sobre duas rodas. Compreender isso é o que me manteve livre de acidentes sérios.
Ricardo Xavier RH - A quantidade de ciclovias e ciclofaixas na cidade é suficiente? Como o senhor vê a falta de respeito dos próprios ciclistas? E dos pedestres?
Saldiva - É muito importante que o ciclista respeite os pedestres. É preciso saber a hora de descer da bicicleta e empurrá-la em uma calçada, por exemplo. Para mim, ciclismo e paz no trânsito são conceitos definitivamente interligados.
Ricardo Xavier RH - Como reverter o quadro de baixo uso da bicicleta como veículo de transporte? Como os governos - federal, estadual e principalmente, o municipal - podem contribuir para isso?
Saldiva - Onde há uma boa estrutura cicloviária, a bicicleta tem papel importante na matriz de transportes. Na cidade de São Paulo, ainda predomina a cultura das ciclovias para lazer. O que tornaria a bicicleta uma alternativa modal seria a conjunção de ciclovias e bicicletários.
Ricardo Xavier RH - Há como realizar iniciativas experimentais, como um projeto-piloto, no sentido de testar possibilidades em municípios menores? Qual o espaço para que as pequenas e médias cidades contribuam nesse debate?
Saldiva - Nos municípios menores, a bicicleta já tem um espaço expressivo como meio de transporte. Mesmo em cidades maiores, como Santos, no litoral paulista, por dispor de infraestrutura adequada, há um grande contingente de bicicletas.
Ricardo Xavier RH - Há quanto tempo o senhor pedala e usa a bicicleta como meio de transporte? Por que tomou esta decisão? Qual é a distância que percorre diariamente? E como faz em dias de chuva?
Saldiva - Utilizo a bicicleta como meio de transporte desde o meu primeiro ano de faculdade, em 1972. Tomei esta decisão porque sempre gostei da bicicleta, por permitir uma grande flexibilidade no trânsito e pelo fato de que posso conhecer melhor a cidade e seus personagens. Com o passar do tempo, a visão ambiental foi incorporada. Os dias de chuva permitem o uso da bicicleta, desde que ela não seja torrencial. Basta ter de roupas adequadas. Em geral, a minha quilometragem média semanal fica entre 150 a 200 km, pois não pedalo nos finais de semana. Felizmente, nunca sofri um acidente sério.
Ricardo Xavier RH - Na USP, há um vestiário com chuveiro? Há outros colegas que usam bicicleta como meio de transporte?
Saldiva - Tenho a felicidade de ter acesso a chuveiro nos locais em que trabalho. Chego na FMUSP e "viro médico". Infelizmente, ainda não há outros colegas que usam a bicicleta, mas há alunos.
Ricardo Xavier RH - O senhor já viajou com a bicicleta? Como foi a preparação? E o ritmo na estrada?
Saldiva - Já viajei para o Rio de Janeiro (aproximadamente 430 km de distância de São Paulo), Caxambu (cidade mineira que fica a 306 km da capital paulista) e Campos do Jordão (cidade paulista a 176 km de São Paulo). No ano que vem, pretendo fazer o Caminho da Fé (trilha de peregrinação de cerca de 400 km entre as cidades paulistas de Tambaú e Aparecida). Rodo a uma média de 20 km por hora na estrada, geralmente pedalando algo em torno de 8 a 10 horas por dia. Sempre viajei sozinho. As pessoas do meu círculo de amizades, da minha faixa etária (55 anos), não são dadas a este tipo de aventura.
Ricardo Xavier RH - O senhor também pedala à noite? Faz parte de algum grupo de ciclistas como os Night Bikers?
Saldiva - Gostaria, mas me falta tempo.
Ricardo Xavier RH - O senhor já pedalou em outras cidades do País ou do exterior?
Saldiva - Vou todos os anos a Boston (Estados Unidos). Lá, sou ciclista full time. A diferença? Há ciclovias e respeito ao ciclista.
Por Wagner Belmonte e Beno Suckeveris
Rerirado de http://www.ricardoxavier.com.br/index.php?acao=entrevistas&subacao=ler&i=69 em 01/12/09









