Você, que não dá um passo sem o seu carro, que não consegue imaginar a vida sem ele, certamente deve achar que gente como o professor de Educação Física Fernando Hélio Braga, 51 anos, é, no mínimo, excêntrica. Ele mesmo admite: há quem o veja como louco. Afinal, Fernando Braga sai de casa todos os dias, de bicicleta, para trabalhar em uma unidade psiquiátrica de Cariacica e em uma escola de Vitória, percorrendo, em média, 35 quilômetros com seu veículo de duas rodas.
E não o faz para disputar uma competição, e sim por consciência da importância do seu ato para a construção de cidades com mais qualidade de vida. Membro fundador da União dos Ciclistas do Brasil, ligado a clubes que incentivam o uso da bicicleta, Fernando Braga alerta as pessoas para a necessidade de pensarem no co- letivo. Ele alerta sobre o crescente aumento da frota de carros e motocicletas, e para a necessidade de os governos instituírem políticas públicas que beneficiem a população com estrutura para que elas possam usar outros tipos de meio de transporte que poluam menos e ocupem menos espaço nas vias. Como retorno, lembra o professor, todos ganharão em saúde e em melhoria do meio ambiente.
O que o trouxe ao Espírito Santo?
Meu pai era militar, foi comandante do Exército aqui, por isso rodei o Brasil. Mas estou no Espírito Santo há 20 anos, e acho até que sou mais capixaba do que muitos capixabas. Saí do Rio, fui trabalhar em Belo Horizonte, São Paulo, mas depois de viver 25 anos em Copacabana, me identifiquei muito com Itapoã, Vila Velha, onde moro com minha mulher e dois filhos, por causa da qualidade de vida. É um apena que ao longo desses anos todos muita coisa tenha se perdido, até pela desordem urbana. A cidade acabou ficando um pouco parecida como Rio de Janeiro.
Copacabanizaram a orla marítima do Brasil. . .
Sim, mas tem tanta coisa para Copiar de Copacabana. A desordem é o que há de pior. Quando cheguei aqui os prédios eram mais baixos na orla, Com respeito ao afastamento lateral. O que acontece hoje é fruto da falta de um plano diretor urbano no passado. E a gente sabe que essa realidade reflete também a ganância.
O que simbolizava a qualidade vida, que o atraiu para cá?
Uma coisa era o fato de as pessoas se chamarem pelo nome, de frequentarem o mesmo espaço, de terem um tratamento diferenciado. Aqui em Itapoã o cara da barraca conhece meu filho, me conhece. Numa cidade grande, você perde sua identidade.
Como começou sua relação com a bicicleta?
A bicicleta oportuniza o primeiro grande passo de uma pessoa, e isso acontece ainda quando somos crianças. Fui in- terno no Colégio Militar, no Rio, e, como todo garoto, quando estava em casa, pegava minha bicicleta, lá em Petrópolis, onde minha mãe morava, e alçava grandes vôos, indo para distritos próximos, onde tinha cachoeiras, poços. Aqui, quando estou muito estressado, no final de semana, saio de casa, em Itapoã, às 5horas, coloco um dinheiro no lado da sunga e vou de bicicleta lá para Buenos Aires, em Guarapari.
É longe. São quantos quilômetros de distância?
Entre ida e volta, 138 quilômetros. Você chega lá, toma um banho de cachoeira, come um PF, desce pela estrada saboreando coco, e banana. É uma interação maravilhosa com a natureza. Para desfrutar de algo assim, a pessoa tem que enxergar a vida de forma diferente? Certamente, tem que ser desprendida de valores materiais. E é aí que a gente deve estar atento à mudança de paradigmas, como o de que carro é sinônimo de gente bem-sucedi- da, e bicicleta de fracassados. Tenho por hábito, todos os dias, ir para o trabalho de bicicleta, e agia assim há quase 30 anos, quando saía de Copacabana e ía para a faculdade, em Jacarepaguá. No hospital em que trabalho, em Cariacica, já ouvi gente me chamar de maluco, porque saio de Itapoã e vou até lá de bicicleta. Mas maluco, pra mim, é quem vai de carro e gasta uma hora e meia no trânsito, enquanto eu gasto 50 minutos.
Mas corre muitos riscos...
Sim, por isso as campanhas públicas não têm só que ser de estímulo ao uso de bicicleta, à caminhada, mas também devem ser educativas. Hoje, o Brasil é terceiro maior fabricante de bicicletas - temos a quinta maior frota -, mas a ausência de políticas públicas impera em quase todos os Estados. O poder público, aqui, faz campanha para motociclistas, para respeito à faixa de pedestre, mas não faz para quem usa bicicleta. O ciclista não é mal educado, ele não foi educado. Neste ano, na escola em que trabalho, desenvolve - mos um projeto denominado "Rota segura para a escola", onde trânsito, mobilidade, foram temas abordados em todas as disciplinas, com focos na promoção da saúde e no meio ambiente. Pior do que a ausência de políticas públicas, são as políticas públicas equivocadas .
Dê um exemplo.
Me arrepia ouvir o governo do Estado dizer que vai fazer um túnel de R$800 milhões, ligando Vila Velha a Vitória. Todos sabem que grandes obras não resolvem os problemas de mobilidade, só atraem mais carros. Nova Iorque criou recentemente uma faixa de trânsito Para as pessoas andarem de bicicleta. Estive em Santa Catarina, numa conferência internacional, na Semana da Bicicleta, onde foram exibidos gráficos mostrando, por exemplo, a realidade da Noruega, onde95% das pessoas têm carro, mas só 10%fazem uso diário. Parte vai a pé, parte de bicicleta, e o restante faz uso de transporte coletivo.
No Brasil carro ainda é sinônimo de status. Além disso, a velocidade no trânsito é alta, diferente da Europa.
Muito alta. Lá eles têm um projeto chamado traffic calming, onde a velocidade não ultrapassa 30 quilômetros por hora, em muitas ruas. Quanto se gastou, no mundo, para adaptar as cidades ao automóvel, e o que a gente lucrou com isso? Eu vejo como uma afronta não termos o aquaviário reativado.
O governo promete reativá-lo agora.
Sim, mas fala em criar uma linha da Prainha, em Vila Velha, à Praça do Papa, em Vitória. Será que fizeram pesquisa e de origem-destino? E também está prometendo instalar corredor exclusivo para ônibus. Mas me diga: quem é que vai trocar o carro pelo ônibus só por causa disso? Precisamos de políticas públicas que incluam, além do corredor, construção de ciclovias, de bicicletários, e integração entre modais de transporte diferentes.
Inicialmente, o corredor não será uma medida simpática...
Sim, mas as pessoas têm que estar conscientes de que carros de passeio ocupam nas vias mais espaço do que os ônibus. Em Londres, foi feito um plebiscito para saber sobre a aceitação do pedágio urbano, que foi implantado e melhorou o trânsito e a qualidade devida. Será que as pessoas atentam para o fato de que15% dos leitos hospitalares são ocupados por gente com doença respirató- ria, já que o carro é responsável por 75% das emissões de monóxido de carbono?
Sem falar nos traumas...
Sim, 60% dos leitos de traumatologia são ocupados por vítimas de acidentes de trânsito. Na Colômbia, paralelamente à implantação dos corredores para ônibus, construíram 300 quilômetros de ciclovia. Para o povo usar, uma pesquisa mostrou que eram necessários bicicletários, com chuveiro e armário. Hoje, no Rio e em São Paulo, as pessoas já se pode embarcar de bicicleta no metrô, no final de semana.
Como é o seu cotidiano usando a bicicleta como meio de transporte?
Uso bicicleta até quando chove. Levo sempre uma outra Roupa para trocar. Às vezes saio de casa e vou direto a Cariacica, mas há dias em que vou primeiro a Vitória. Só volto às 22 horas para Vila Velha. Percorro por dia, em média, 35 quilômetros, mas houve um ano em que trabalhei em Bairro de Fátima, na Serra, e pedalava 65quilômetros/dia. Tenho três bicicletas, e em duas delas um computador de bordo. Por ano, faço de sete a oito mil quilômetros. Sem contar as viagens. Em janeiro eu e um grupo vamos fazer o percurso do Deserto do Atacama, e depois vamos repetir a Viagem do Descobrimento, indo de 17 a 21 de abril, por 580 quilômetros, até Porto Seguro na Bahia, pelo litoral.
Não usam a BR?
De jeito nenhum. O ciclista tem que entender que nem sempre o caminho mais rápido é o mais seguro. No dia a dia, não vou pela Rodovia Lindenberg. Sigo por Paul, saio em São Torquato. Se vou para Cariacica, passo pela estrada de Porto Velho, e não pela BR262. As doenças que mais matam no mundo inteiro são ligadas ao sedentarismo. Trinta minutos por dia de atividade física já nos beneficia. Mas eu insisto: não podemos ficar reféns de um só meio de transporte. Como seria a greve do Transcol se tivéssemos o aquaviário funcionando?
Você motivou sua família para um menor uso do carro?
Não totalmente (riso). Meu Filho gosta de pedalar, mas minha mulher é ‘dependente' de carro. Durante muito tempo, fez trilha comigo, mas ela e a minha filha adoram carro. Se conseguir que elas venham para a praia de bicicleta. Fico satisfeito. Hoje, as pessoas gastam metade do tempo Procurando vaga para estacionar o carro, porque não há vaga. Todos temos que pensar no coletivo, e não no individual. Estacionar na rua é privatização do espaço público... No Japão, você só pode ter carro se tiver onde guardá-lo. Aqui, hoje, um operário pode Trabalhar de carro, porque é Possível comprar um com financiamento de sete anos. Motocicleta, então... A frota cresce sem parar.
Entrevista publicada no Jornal A Gazeta, Vitória/ES - Caderndo Dia a Dia, pag. 14 - 17 de janeiro de 2010








