Caminhada, bicicleta e carona ajudam o bolso, o coração e a cidade

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minO analista de sistemas Fernando Norte, de 34 anos, pesava 120 quilos, fumava dois maços de cigarro por dia, não trocava refrigerante por água e só comia alimentos industrializados. Não por acaso, teve uma crise renal e, por sugestão de um amigo, resolveu comprar uma bicicleta para ir e voltar do trabalho. São 14 quilômetros diários, entre os bairros Renascença, na Região Nordeste de Belo Horizonte, e Lourdes (Centro-Sul). Hoje, 40 quilos mais magro, glicemia e colesterol controlados, ele se salvou e, mesmo sem querer, aderiu a uma moda que, se pegasse no atacado, teria tudo para salvar a cidade do caos: a mobilidade sustentável. Em outras palavras, sempre que possível, escolher meios de transporte mais saudáveis, limpos, econômicos e menores.

A ideia vem deixando de ser filosofia de "ecochato" para, aos poucos, ganhar simpatizantes nas classes média e alta, que historicamente mantêm o privilégio de andar de automóvel. A despeito do transporte público sofrível, da falta de infra-estrutura para andar de bicicleta ou a pé e das longas distâncias das metrópoles brasileiras, fatores que tornam o carro quase um antídoto para a vida contemporânea, há quem vista a camisa em nome da saúde, para se livrar do estresse do trânsito, ganhar tempo, economizar ou mesmo por consciência social e ambiental. O resultado sempre favorece a todos numa capital como BH, cujas condições de locomoção e a qualidade de vida se deterioram dia a dia.

Nos últimos 10 anos, a frota da cidade cresceu quase 70%, batendo a marca de 1,1 milhão de unidades, mas o sistema viário não foi ampliado no mesmo ritmo. Não por acaso, a velocidade média em alguns trechos de via é de apenas 6 km/h nos horários de pico, quase a mesma de um jovem pedestre. Os veículos de passeio somam 785 mil e, apesar de ocupar mais espaço, proporcionalmente, circulam praticamente vazios. Em geral, a capacidade é para cinco pessoas, mas a ocupação média é de 1,3.

Quanto mais lento o tráfego, pior é a qualidade do ar. Dados do Laboratório de Poluição da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostram que 70% dos poluentes saem dos canos de descarga. "Outros 20% são formados a partir de reações químicas com substâncias geradas pela mesma fonte", explica o pesquisador Paulo Saldiva.

Nesse contexto, faz mais sentido a escolha de Fernando Norte, que deixou de ser "cabeça, tronco e rodas" há três anos. "É perfeitamente possível se virar de bike. Só em ocasiões especiais uso ônibus e táxi", garante, acrescentando que leva 30 minutos entre a casa e o trabalho, menos do que faria de carro, às 8h30. Um kit de limpeza, com toalha, roupa seca e desodorante, é fundamental. "Basta um banho de ‘gato' e estou novo", comenta ele, que hoje é adepto da Associação Mountain Bike BH, um dos grupos de cicloativistas que, no jargão da juventude, mais "bombam" na cidade.

Ganharam esse apelido os ciclistas engajados em diminuir o avanço sem freio e enfumaçado dos veículos a motor. O grupo surgiu em 2004, como uma comunidade no Orkut, para reunir interessados em trilhas. Hoje, são 2.800 participantes, que fazem passeios noturnos na cidade, eventos educativos e a Jornada Intermodal, espécie de gincana que, em 22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro, testa as qualidades de diversos meios de transporte.

Teste

Às 18h, quem corre ou pedala do Coração Eucarístico, na Região Noroeste, à Savassi (Centro-Sul) chega mais rápido que usuários de ônibus ou carro, por exemplo, gasta mais calorias e não perde dinheiro (veja comparativo na página 18). "Nossa idéia não é banir o automóvel, até porque ele tem sua função, mas promover o consumo consciente", comenta o fundador do grupo, o advogado Lucas Moreira, ciente de que há um exagero no papel que a "máquina do século 20" desempenha.

O funcionário público Robson Miranda, de 44, agregou um pouco de racionalidade ao uso que faz do seu carro. Há oito anos dá carona para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na Pampulha, aos vizinhos de Sabará. Quanto maior é a lotação, menos veículos rodam vazios pelo trajeto. E ele ainda ganha com isso. "Bato papo, faço amigos e tenho uma ajuda na gasolina", conta, dizendo que, entra semestre, sai semestre, sempre aparece um ‘caroneiro' diferente.

O arquiteto Leonardo Werneck, de 34, só tira seu carro da garagem do prédio em que mora, no Centro, quando é realmente necessário. "Trata-se de uma máquina muito pouco eficiente. Além disso, não concebo a idéia de ficar procurando estacionamento e passar duas ou três horas por dia em deslocamentos. As pessoas compram o carro achando que vão ter liberdade, mas o meu conceito é outro", comenta.

Para o trabalho, na Serra, ele vai de táxi-lotação ou ônibus. Para os demais compromissos, anda a pé. E diz que, apesar das dificuldades que a vida numa cidade feita para automóveis impõe, é possível e viável ser cidadão no transporte: "Não temos que esperar planejamento urbano, depende de atitude. Se a gente manifestar o desejo de mudança, o planejador vem atrás."

Fábio Fabrini - Estado de Minas

Retirado de http://www.uai.com.br/UAI/html/sessao_2/2009/02/16/em_noticia_interna,id_sessao=2&id_noticia=99321/em_noticia_interna.shtml em 20/02/09

 

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