Servidores do TRT/SC reivindicam bicicletário

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Uma vez por semana, às vezes mais, o servidor no TRT Carlito Andrade, de 54 anos, vence a pedaladas os 11 quilômetros entre o bairro Monte Verde, onde mora, e o local de trabalho. Parte do trajeto é pela movimentada SC-401, rodovia que dá acesso às praias no Norte da Ilha, como Ingleses e Canasvieiras. Como o trecho não tem ciclovia - mesmo os acostamentos são precários - Carlito precisa dividir a via com motoristas que nem sempre respeitam ciclistas. Até 2004, a Capital tinha míseros 18 Km de ciclovias e ciclofaixas. De lá para cá, mais 25 Km foram feitos ou estão em fase de conclusão, mas nem de longe ameaçam o reinado dos automóveis em Florianópolis.

Em uma cidade na qual o transporte coletivo é alvo cotidiano de reclamações, quem pode compra carro. Em janeiro o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) divulgou que, em 2007, emplacou mais de 27 mil veículos na Capital, o que supera em 30% o número do ano anterior. A média mensal de emplacamentos de veículos 0km chegou a 2.265 no ano passado, contra os 1.768 de 2006. Os engarrafamentos provocados pela aposta nesse modo de transporte estimulam cada vez mais o uso da bicicleta.

Uma pesquisa de opinião pública encomendada pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) e realizada em 2006 mostrou que, no bairro de Ingleses, a bicicleta é o segundo meio de transporte mais utilizado pelos moradores. A "magrela" é usada por dois terços das famílias da região e por três quartos das pessoas com rotina associadas a escolas (alunos, professores e funcionários). O uso é maior nas classes C, D e E.

O transporte coletivo é o meio mais usado no balneário (82%), mas a bicicleta aparece em segundo lugar entre os 400 entrevistados, com 65% das respostas. Quando questionados sobre os principais problemas no uso da bicicleta, 61%, a maioria, respondeu que era a falta de ciclovia/pista.

Carlito conhece bem as dificuldades enfrentadas pelos ciclistas. Ele já foi atropelado na avenida Beira-mar Norte quando treinava para competição. "É preciso dar alternativa para quem deseja usar a bicicleta, até porque temos um transporte coletivo de quinta categoria, com horários ruins, que não favorece quem quer deixar o carro em casa." Carlito cita outro exemplo de descaso: a falta de ciclovia nas pontes que ligam a Ilha ao Continente, onde sequer há segurança na passagem para pedestres, localizada sob as pontes.

A base para os trechos concluídos ou em conclusão de 2004 para cá é um projeto do IPUF chamado "Rotas Inteligentes". A arquiteta Vera Lúcia Gonçalves da Silva explica que o objetivo é promover uma política que priorize o transporte coletivo, o pedestre e a ciclovia. "Os dois principais eixos em relação às ciclovias são a infra-estrutura e a parte educativa, de informação aos ciclistas".

A realidade, porém, nem sempre se ajusta aos detalhados projetos do IPUF. Há reclamações com relação à qualidade do material usado e ao descumprimento de normas de segurança, por exemplo, na ciclovia do Campeche. O secretário municipal de Obras, Aurélio Remor, responde que os trechos construídos têm garantia de cinco anos. Ele lembra que, antes da atual administração, as ciclovias eram escassas, e que para fazê-las é preciso uma "mudança de cultura" junto à população. Em 2008, último ano da administração Dário Berger, oito obras estão em execução e duas em fase de licitação.

Para Francisco Antônio Carneiro Ferreira, professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Ecologia e Desenho Urbano, há um deslocamento entre o discurso e a prática da prefeitura de Florianópolis.

Na avaliação dele, o projeto prioriza a dimensão econômica, desconsiderando a dimensão socioambiental. E é esta dimensão que tem potencial para permitir que a Capital evolua sem perder de vista o que nela é mais atrativo. Ele explica: "O que está internalizado é o modelo do automóvel, mas é preciso trabalhar com uma mudança de valores... O que a prefeitura faz é tentar compatibilizar os dois modelos, implantando as ciclovias em espaços residuais que se adaptam a esse tipo de deslocamento".

Ele cita como exemplo a recém-inaugurada obra na rua Hercílio Luz - centro da Capital - onde o trecho para bicicletas está colado ao meio-fio, e o ciclista precisa tomar cuidado com obstáculos que comprometem a segurança. Já em Ingleses existem áreas de escape para evitar colisões, mas o paisagismo não foi levado em conta. Isso aconteceria se o modelo em que o automóvel é o rei fosse realmente confrontado. Com um paisagismo nas ciclovias que respeitasse a mudança das estações, os ciclistas teriam sombra no verão e, no inverno, sol na medida adequada. "O interesse econômico, porém, fica acima do interesse público", avalia Ferreira.

Quem dá um bom exemplo é a cidade de Bogotá, capital da Colômbia, que em menos de seis anos ganhou mais de 300 quilômetros de ciclovias, as chamadas ciclorutas. Esses trechos estão equipados com bicicletários e integrados ao transporte público com o estacionamento para bicicleta.

Dentro de casa, os Tribunais também precisam acordar para o seu papel nessa mudança de modelo. O SINTRAJUSC indicou que, na nova sede das Varas e da Distribuição do TRT na Capital, seja reservado um espaço para bicicletários e chuveiros. O diretor do Serviço de Obras e Manutenção do TRT, Alexandre Koenig São Thiago, informa que a proposta está em estudo tanto na Capital quanto em Itajaí, onde o prédio das Varas está em obras.

Para Carlito Andrade, o ciclista do TRT, vestiário e lugar para estacionar as "magrelas" estimulariam ainda mais esse tipo de transporte. "Andar de bicicleta favorece a saúde e o meio ambiente... Temos que nos preocupar com isso e cobrar esse compromisso do próximo prefeito", conclui. Compromisso que também deve ser dos Tribunais.

Saiba mais em www.viaciclo.org.br.

Míriam Santini de Abreu
Jornal "O Grito" (Sintrajusc) nº 14 - Abril 2008
Título original: "Ciclovia: Automóvel 10 x 0 Magrela"

Baixe o arquivo original em PDF (Pág. 7 do Jornal)

 

Retirado de http://www.sintrajusc.org.br//arquivosSGC/DOWN_170949OGrito_14.pdf em 20/05/09

 

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