Economia ou paixão? História de ciclistas brasileiros

E-mail Imprimir PDF

http://www.ricardoxavier.com.br/pictures/bike_002.jpgLucas Motta Pavão e Aline Oliveira dos Santos pedalam em São Paulo. Já Daniela Borim faz uso da bicicleta em Goiânia e Natália Afonso pedala em Curitiba. Todos eles contam quais são as maiores dificuldades que enfrentam em suas cidades para fazerem da magrela sua companhia essencial.

Lucas e Aline moram em São Paulo. Daniela é de Goiânia. Natalia vive em Curitiba. Eles não se conhecem, mas têm em comum a paixão de usar a bicicleta como principal meio de transporte. Aline é quem faz isso há mais tempo: já são sete anos. Nas empresas em que trabalham ou trabalharam, não recebem o mínimo apoio. São unânimes em reclamar da insuficiência de ciclovias destinadas não apenas ao lazer, mas principalmente ao trabalho e da falta de educação no trânsito.

São Paulo - O estudante de Rádio e Televisão da Fapcom, Lucas Motta Pavão, adotou a bicicleta como meio de transporte no dia 3 de janeiro de 2007. E foi por necessidade. O salário de estagiário não dava para pagar as despesas de condução. Lucas, que hoje está desempregado, não perdeu mais o gosto pela magrela. Pedala uma média de 18 quilômetros por dia, até mesmo no horário noturno, quando vai à faculdade. Nas noites de terças, Lucas sai com o grupo Aces High Bikers, que chega a percorrer 70km. Chuva também não é um problema. Ele carrega capa e tênis impermeáveis na mochila, onde leva ainda sacolas plásticas e uma muda de roupa limpa e seca.

A empresa onde trabalhava faz parte da maioria que não está nem aí para quem vem de bicicleta. "No local não havia vestiário. Pelo contrário. Não me deixavam entrar de bermuda, nem mesmo para ir até o banheiro. Então, eu tinha de trocar de roupa na calçada, o que eu fazia com algum prazer, como forma de protesto. Mas nunca adiantou", desabafa Lucas. Ele chegou a incentivar os colegas a adotar a bicicleta como meio de transporte. Ninguém levou muito a sério o conselho, mas achavam o máximo o fato dele ser ciclista.

Acidentes - Outro problema é a falta de educação no trânsito. Mesmo pedalando corretamente pelo fluxo, Lucas conta que sofre demais com o desrespeito. "Os motoristas não dão seta para sinalizar as manobras e conversões que pretendem efetuar", argumenta. Um deles provocou um acidente. Lucas entrou com tudo na porta do carro dele e machucou o joelho. O motorista admitiu que tinha errado e pediu desculpas.

Já com condutores de ônibus e taxistas, Lucas passou por três situações que estão longe de ser exceções. Pior: elas traduzem intolerâncias cotidianas cujos reflexos violentos demonstram a necessidade urgente de se repensar todo o sistema de transporte urbano. Numa delas, a parada (de um ônibus) ocorreu fora do ponto, no meio da rua. Para completar a sucessão de erros, o motorista abriu a porta justamente no momento em que Lucas passava. Ele caiu, teve arranhões nos braços e nas mãos. A bicicleta ficou danificada. Havia motivos de sobra para Lucas esbravejar contra o motorista, que se limitou a ouvir calado.

Na segunda situação, a reação do profissional foi diferente. Um motorista de ônibus ameaçou atropelá-lo pelo fato de Lucas pedalar na rua e não na calçada, como queria o condutor. A resposta do ciclista expressa a relação de nervosismo cotidiano numa cidade que tem picos de 200 quilômetros de ruas e avenidas congestionadas no horário de rush. Por mais estudada que seja essa relação entre usuários de meios de transporte de duas e quatro rodas, ou até mesmo de transporte coletivo, o antiexemplo é narrado pelo próprio Lucas: "O cara era tão folgado, que peguei minha garrafa d'água, dei uma esguichada nele e sumi no meio do trânsito."

Pior ainda foi o que aconteceu com um taxista, também em São Paulo. O motorista avançou o sinal vermelho e atropelou Lucas num cruzamento. O ciclista teve muita sorte. Conseguiu pular da bicicleta e escapar de uma lesão que poderia ser mais séria. O pedal bateu na canela dele, que sofreu um pequeno corte.

SP-Rio - Lucas também não gostou muito de usar o metrô com a bicicleta. Diz que há muitas regras a serem seguidas e que, no vagão, falta espaço e a bicicleta se transforma em transtorno para os passageiros. Mesmo assim, ele nunca dispensa o metrô quando chega à capital cansado de uma viagem de mais de 100km. Para as viagens, Lucas se preocupa sempre com mantimentos e com a possibilidade de precisar de hospedagem para um pernoite. Bem condicionado fisicamente, não encontra grandes dificuldades para enfrentar longas distâncias. Normalmente, pedala a uma média de 25km/h, com picos de até 70km/h, que caem para 10 ou 15km/h, quando enfrenta subidas íngremes.

A maior das viagens ocorreu entre São Paulo e Rio de Janeiro, pela Rio-Santos. Os 505km foram percorridos em cinco dias. Lucas faz questão de elogiar a Polícia Rodoviária, que sempre ajuda os ciclistas, até mesmo dando água.

Para inglês ver - Ele, no entanto, é crítico em relação à Prefeitura de São Paulo, que, no segundo semestre de 2009, implantou uma ciclofaixa que liga três parques da zona sul da capital paulista. "O que posso achar de uma ciclovia que tem horário de funcionamento?", ironiza. Segundo ele, o "expediente" é curto. "Aos domingos, das 7 da manhã às 2 da tarde, neste dia, nesta hora, eu costumo dormir", diz. "Fui à inauguração da ciclofaixa. E é aquilo que costumamos dizer: é só para inglês ver. Ela leva nada a lugar nenhum. Foi pensada para diversão e passeio, mas não para os ciclistas se locomoverem", reivindica.

Mas nem tudo é ruim na avaliação de Lucas. Ele reconhece, por exemplo, que a ciclofaixa é importante "no sentido de incentivar as pessoas a pedalar e a criar gosto pelo esporte". Na opinião dele, como ciclista experiente que é, chegam a ser "ridículas as ciclovias na cidade de São Paulo". Além de poucas e precárias, a maior parte delas fica dentro de parques, o que sinaliza um problema (desafio) cultural no sentido de integrar a bicicleta ao sistema de transporte.

Na Avenida Sumaré, diz Lucas, há uma suposta ciclovia que está mais para trilha, com troncos e raízes de árvores tomando conta de tudo. "Na (Avenida Brigadeiro) Faria Lima, tem outra, que em vez de troncos e raízes, tem ponto de ônibus, ambulantes e muita gente. É lamentável por mostrar o quanto as ciclovias não levam em conta as necessidades reais de quem usa a bicicleta", pondera.

Lucas reconhece que muitos ciclistas ainda não estão preparados para enfrentar o dia-a-dia do trânsito. Outros se acham os donos da razão e acabam sendo estúpidos com motoristas. "É triste, pois nós, ciclistas, temos de ser gentis e educados com as pessoas, para não gerar mais violência, mas há casos em que também perdemos a paciência".

A relação entre ciclistas e pedestres também precisa ser repensada. "Eles invadem as faixas que ficam nos parques. É fato que, além de falta de educação, um dos maiores motivos é a má sinalização nas próprias faixas, que quase não se diferenciam de onde devem andar ciclistas ou pedestres". Lucas cita como exemplo a ciclovia do Parque do Ibirapuera, que raramente frequenta justamente por causa da sinalização.

Rotina de 7 anos - A necessidade falou mais alto na hora de trabalhar. O patrão deu um considerável empurrão para que a balconista Aline Oliveira dos Santos, de 25 anos, fosse mais uma ciclista em São Paulo. Sem vale-transporte, ela fez as contas e viu que não compensaria pagar condução. Assim, já há sete anos, Aline decidiu usar a bicicleta todos os dias. A distância até que é pequena: mais ou menos um quilômetro e meio. Às vezes, ela pedala à noite. Quando chove, põe uma capa. Não é raro chegar ao serviço completamente molhada. Aline ainda não experimentou usar o metrô com a bicicleta (nos finais de semana e em horários restritos, isso é possível), nem viajou com a companheira de todos os dias.

Aline diz que nunca sofreu qualquer tipo de preconceito ou ameaça, mas que há sempre algum condutor mal educado por perto. Também reclama dos ciclistas que, na avaliação dela, muitas vezes desrespeitam as leis de trânsito. Num mea culpa, ela mesma confessa que por vezes pedala pela contramão, mas garante que isso só acontece "muito de vez em quando". "Graças a Deus não sofri nenhum acidente grave, só leve", conta, orgulhosa, a ciclista.

No local de trabalho, não tem vestiário nem chuveiro. Além dela, mais sete pessoas vão trabalhar de bicicleta. "As bikes ficam expostas à chuva e ao sol, sem qualquer proteção. Algumas chegam a enferrujar. Sempre temos que levar para arrumar. Deveria ter mais incentivo por parte do governo". Ela discorda de Lucas. Para Aline, é boa a iniciativa das ciclofaixas na capital paulista. No entanto, ela concorda que ainda são poucas as ciclovias e que realmente falta respeito também dos pedestres, que, mesmo invadindo o espaço destinado às bicicletas, não acham que estão errados.

Curitiba - A bicicleta é uma companheira de longa data para Natalia Borim. Ela aprendeu a pedalar na infância, aos 7 anos. Hoje, aos 22, a secretária e massoterapeuta da capital paranaense não tem carro nem carteira de habilitação. E nem faz questão. Em 2006, Natalia adotou a bicicleta como meio de transporte. Ela diz que tomou esta decisão por três motivos: gosta de pedalar, odeia andar de ônibus e economiza. Natalia recebe a passagem do transporte coletivo em dinheiro. Ela percorre em média 20km por dia. Não pedala à noite, e, embora tenha muita vontade, nunca viajou com a magrela. Só abre mão da bicicleta nos dias de chuva. Nestas ocasiões, faz o que não gosta: anda de ônibus. A jovem até entende da parte mecânica da bicicleta, mas prefere deixar os reparos para o pessoal especializado.

http://www.ricardoxavier.com.br/pictures/bike_005.jpgNatalia é fã de bicicleta: "O ciclismo deu mais resistência ao meu corpo. Hoje, posso pedalar subidas longas sem me cansar tanto. A vontade de manter uma vida saudável aumentou, pois também frequentei academia por um certo tempo. O humor e a autoestima melhoraram. Percebo isso quando tenho que vir de ônibus lotado. Aí, chego estressada ou de mau humor. Quando venho de bicicleta, ocorre o contrário. Me sinto muito mais disposta no trabalho. Pedalar é uma terapia que faz bem ao corpo, à mente e à alma", discursa.

Sem privilégios - Em nenhuma empresa que tenha trabalhado, Natalia teve o que chama de "privilégios" - chuveiro e vestiário. Certa vez, um colega de empresa comentou que era um mico o fato dela vir vestida como ciclista. Ela conta que sempre foi abordada por pessoas interessadas em saber se realmente viria trabalhar de bicicleta. Num desses casos, uma senhora até disse que ficou admirada com a atitude e que também tinha muita vontade de vir ao trabalho com esse meio de transporte. Porém, alegou que tinha medo dos motoristas que não respeitam os ciclistas.

Natalia conta que é muito precavida e nunca sofreu acidente sério. Pedala com calma, no sentido do fluxo e presta muita atenção, já que sabe muito bem a realidade no trânsito, principalmente para ciclistas e motoqueiros. Reclama dos condutores de veículos de grande porte, como ônibus e caminhões, que não cedem espaço à bicicleta e muitas vezes obrigam o ciclista a subir na calçada. Revela que nunca sofreu ameaças e que, apesar de andar junto à guia, já levou muitas "buzinadas" dos motoristas.

A secretária-massoterapeuta diz que, em Curitiba, as ciclovias vão até os parques, o que não é a realidade das pessoas que utilizam a bicicleta para trabalhar. Neste caso não existem ciclovias suficientes. "Cerca de 90% das pessoas que utilizam esse meio de transporte andam na via do expresso biarticulado, chamada também de canaleta. Como nela passam apenas os ônibus, alguns ciclistas até consideram mais seguro para nós (ciclistas), mesmo sendo ilegal pedalar nesse local", diz.

As autoridades de transporte negam e reiteram que os ciclistas nunca devem andar nas faixas e corredores exclusivos para ônibus. A própria Natalia admite que alguns ciclistas abusam da sorte e desrespeitam as regras de trânsito, em especial quando ultrapassam esses ônibus biarticulados ou seguram atrás destes veículos, para pegar rabeira. Além de muito perigoso e de ser uma prática absolutamente condenada por autoridades de trânsito, essa iniciativa põe em risco a vida deles. "Já aconteceram acidentes, até mesmo com mortes, nas canaletas do expresso", narra Natalia.

Goiânia - Pedalar, para Daniela Afonso, é quase como respirar. A designer gráfica de Goiânia sempre quis fugir do sedentarismo que, para ela, é ocasionado pela profissão. Ela mesma enumera as vantagens: "Com a bike, adquiri condicionamento físico, obtive economia de combustível, há menos poluição e tenho satisfação de pedalar", enumera.

A ciclista, de 33 anos, nunca sofreu um acidente sério. São 10km de viagem todos os dias. Quando a chuva é forte, não tem jeito. Deixa a bicicleta de lado. Se é fraca, usa uma capa e vai embora. Precavida, também carrega uma bomba de ar e uma câmara sobressalente. Daniela entende de mecânica e, se preciso, põe a mão na massa. Tem carro e moto, mas a paixão dela é a bike. Um das próximas metas é fazer uma viagem de 70km.

Na empresa, apesar de existir outras colegas que adotaram a magrela, falta incentivo. Vestiários com chuveiros são só para os homens. Ela diz que sente certo preconceito, não por ser mulher, mas por ser ciclista. Daniela conta que dividir a rua com automóveis realmente é uma odisseia. Nunca recebeu ameaças, já que segue à risca as leis de trânsito. "Motoristas não têm paciência com os outros condutores. Imagine com um veículo mais lento e pouco usado, se comparado à quantidade de carros que circulam pelas ruas e avenidas de Goiânia. Infelizmente, aqui também é sofrível o número de ciclovias na cidade. Mas a prática também é restrita. Os pedestres não são mal educados, mesmo porque esta relação gera mais reflexos e riscos para o lado mais frágil. Já alguns "ciclistas" pecam, por exemplo, em utilizar calçadas como vias, invadindo o espaço dos pedestres. Porém, os condutores de veículos automotores ainda são os vilões, considerando a via propriedade estabelecida, sendo que é um espaço democrático e de uso público. Na verdade, ainda carecemos de uma engenharia de tráfego que enxergue a necessidade dos ciclistas coexistirem com outros veículos", analisa a designer gráfica.

Daniela prefere circular à noite, quando as temperaturas ficam mais amenas na quente Goiânia. Ela faz parte do grupo Os Goiabas, que faz passeios às quartas-feiras, num percurso de 30km em média. Democrática, a turma reúne ciclistas de todas as idades, com o mesmo objetivo de curtir a satisfação de pedalar. Para isso, são obrigatórios os equipamentos de segurança, como capacete, farol e pisca.


Título original: "Economia ou paixão? A história de brasileiros que adotaram a bicicleta como meio de transporte"

Retirado de http://www.ricardoxavier.com.br/index.php?acao=entrevistas&subacao=ler&wordSearch=bicicleta&i=71 em 30/11/09

Última atualização ( Qui, 03 de dezembro de 2009 22:23 )  

Comentario 

  1. #1 Daniel Auer Write e-mail
    2010-02-2312:55:51 A HISTÓRIA DE UM CICLISTA SEM MÃOS.

    “Meu nome é Daniel José Dias Auer. Nasci no dia 18 de junho de 1974 na cidade de Ponta Grossa-PR, que fica há 120 Km de Curitiba, capital do Estado do Paraná. Sou deficiente físico (não tenho as duas mãos)
    como faço para lhes enviar o restante?

    ass : Daniel Auer (Tranformando olhares de compaixão em olhares de admiração)

    CONTATOS: PALESTRAS E EVENTOS EM TODO BRASIL.

    Tel: 42 9138 - 1034 / 42 9915 - 5835

    msn:

    email : danieljdauer@ya hoo.com.br

    orkut : ciclista sem maos

Adicionar comentario

:D:lol::-);-)8):-|:-*:oops::sad::cry::o:-?:-x:eek::zzz:P:roll::sigh:
Bold Italic Underlined Striked Quote


Codigo de seguranca
Atualizar

Canais

Ferramentas

On-line

None

Patrocinador

Banner

Parceiros

Publicidade

Banner